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A noite em que o “maldito” chorou e o público aplaudiu

27.10.08 | 3 Comentários

Jards Macalé não é um tipo lá muito comum. Confesso que, quando eu era criança e louca por Video Show, via horrorizada a fatídica cena em que aquele homem moreno de barba negra cantava e cuspia maçã e pétalas de rosa. Ficava pensando que pessoa era aquela, tão fora de si, desordenada e, principalmente, revoltada. Mas eu era apenas uma criança e, graças a Deus, tive a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre esse artista (desculpa, Macao, mas não deu pra não usar o rótulo).

Na noite de 10 de outubro, a Metso e a MdA International trouxeram à Sorocaba esse homem polêmico chamado Jards Macalé, em uma apresentação intimista e emocionante no Teatro Municipal. Jards abriu o show a voz e violão com “Farinha do Desprezo”, e imediatamente seu timbre me fez lembrar do grande Johnny Alf. Sua levada bossa nova dizimou qualquer idéia pejorativa sobre o “maldito” que via na TV, naqueles túneis do tempo empoeirados. Na seqüência, entraram os músicos que o acompanharam durante grande parte do show, começando com um maxixe gostoso e com a bateria que fez a música flutuar entre a modernidade de Jards e o pioneirismo de Pixinguinha e Chiquinha Gonzaga em suas épocas. Os músicos pareciam velhos amigos de Macao e sua música. O piano executou “Mais um abraço para o amigo Radamés” e Jards deixou o palco, mostrando que seu silêncio também é prova de seu talento para a música erudita, remetendo à sua tenra criação musical. 

Macalé fez o público rir às tantas com as histórias que viveu ao lado de Moreira da Silva, grande músico e amigo, em especial a que ambos foram levados de camburão para a delegacia de uma cidadezinha interiorana, dando origem a “Tira o óculos e recolhe o homem”. E aqui eu começo a dizer de mansinho que, quem não foi, perdeu um espetáculo e tanto. O texto dará provas disso até o fim.

Ao interpretar “Ne me quitte pas”, Jards Macalé não segurou a emoção e, ao som do piano, chorou. Pode ser que pela letra, em que Jacques Brel implora para que sua amada não o deixe… Na verdade, não arrisco um palpite, porque Macalé não é do tipo previsível. Depois, um reggae-samba-bossa (isso existe, meu Deus?) que embalou a platéia, convidando-a a cantar, e “Vapor Barato” - uma de suas composições mais conhecidas, por gravações recentes de O Rappa e Zeca Baleiro - ganhou um suingue de salsa inimaginável.

Entre outras tantas canções cantadas, contadas e interpretadas, ainda rolou “Consolação” e “Corcovado”. A prova de que o show foi excelente? Jards Macalé teve que voltar ao palco duas vezes após a apresentação, pois o público pediu bis e bis. Tentaram um terceiro, mas Jards falou:

- É só!

Bendito seja, Jards Macalé!

 

Confira a entrevista concedida à Teia Cultural minutos antes da apresentação.

TC - Que tipo de malandro é você?
JM - Eu sou malandro carioca da Tijuca, brasileiro, pobre, paizano, metido a sabichão… isso aí.

TC - Você era “maldito” por ser de Gotan City ou por cantar mastigando maçãs e pétalas de rosas?
JM - Gotan City, porque Gotan City veio antes. A atitude Gotan City! Fizemos uma música chamada com esse nome, que é a cidade do Batman, né? E é uma paródia, era um alerta em relação ao tipo de ditadura militar, ao que a gente estava vivendo. Aquilo tudo foi impregnando a música, o tipo de interpretação e, acabando o show, eu fui dormir bendito e acordei maldito.

TC - O que faltou para o público entender o alerta na época? Falta ainda?
JM - Claro, falta ainda inteligência e exercício da inteligência. Eu era um artista singular na época, as coisas que faço são muito pessoais, as músicas… Na realidade, tudo isso quer dizer uma coisa: liberdade, a liberdade pessoal. Você entende de música sempre como uma coisa libertária, não tem essa colocação de que “agora sou pop”, “agora sou MPB”, “agora sou isso”, “agora sou aquilo”. Não, tudo o que eu faço é música e música para mim é tudo. É o som do silêncio, o som do riso, o som persistente, esse som que se chama música, os sons audíveis e os sons inaudíveis.

TC - Não é a toa que existe a pausa…
JM - E esse é o maior som! Se não houvesse pausa, não haveria o som. Então esse negócio de “maldito” foi pra frente; toda a imprensa, os jornais, as revistas, as rádios começaram a vender a idéia de maldito…

TC - Você transitou entre vários estilos da música. Como isso influenciou sua produção musical e sua carreira?
JM - Eu não tenho carreira. Não sou um cara carreirista, uso várias formas e manifestações da arte pra fazer a música. Portanto, eu acho que carreira não é o termo pra mim. Eu não gosto de me chamar de artista, artista é uma coisa hipnótica. Eu acho que artista é uma coisa bacana que as pessoas gostariam de ser. Portanto, todos esses nomes - maldito, artista, carreira - nada disso me interessa.

TC - Atendendo a um pedido do Caetano, você foi parar em Londres e, depois, Europa…
JM - Fomos expulsos. Queriam nos proibir, então eu fui. Demos concerto em cima de caminhão no Queen Elisabeth Music Hall, shows em Amsterdã, Paris, Zurique… Fora do Brasil, não tinha inquérito cultural nem tomada de posição.

TC - E foi bom?
JM - Foi ótimo, foi maravilhoso, o convite foi bom, então eu aceitei.

 

TC - Para finalizar, o amor deixou de ser assunto em nossa Gotan City ou ainda há espaço para isso?
JM - Eu estou fazendo uma campanha solidária pela inclusão da palavra amor na bandeira brasileira, pois quando fundaram a república, os positivistas usaram o lema “ordem e progresso”, que é o lema de um filósofo francês fundador do positivismo, chamado Augusto Comte e que, no original, a frase é “Amor por princípio, ordem por base e progresso por fim”. Eu quero entender e saber por que não colocaram a palavra “amor por princípio”. Já tem projeto de lei correndo, há quatro anos, pela inclusão da palavra amor na bandeira. Eu tenho um amigo deputado de quem eu encho o saco por causa disso. É um problema sério: não se fala mais de amor em Gotan City. Gotan City está ruindo, os bancos estão quebrando, estão roubando o dinheiro do povo para tapar buraco, então não se fala de amor em Gotan City. Eu ligo a televisão e só ouço falar nisso, nessa tragédia, na quebra.

» Saiba mais sobre Jards Macalé

Texto e entrevista: Lívia Gusmão
Transcrição: Virginia Diegues
Fotos: Teia Cultural

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