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Literatura

Ahdaf Soueif fala de Egito e Palestina em “O Mapa do Amor”

06.07.07 | Comente lá embaixo

Há muito mais por trás de uma simples história de amor quando se trata de um romance da escritora egípcia Ahdaf Soueif. Ativista fervorosa, sem papas na língua, passional sobre a cultura árabe dentro da qual nasceu e cresceu, Ahdaf é uma das mais eloqüentes e provocadoras vozes em defesa da Palestina. Seus quatro livros misturam história, política, feminismo e paixão. Em “O Mapa do Amor”, que a autora lança 6ª feira (6/7) na Flip, em Paraty, ela utiliza duas histórias de amor. Uma, em 1901, quando a dominação turco-otomana sobre o Egito dava lugar ao imperialismo britânico. A outra, nos anos 1990, mostra o Egito sob o impacto da globalização e da truculência na guerra contra o terrorismo proposta pelo Ocidente.

Anna é uma inglesa, viúva de um soldado britânico, que viaja ao Egito e se apaixona pelo nacionalista Sharif. Os dois se casam, em uma união considerada um escândalo para a época. Quase um século mais tarde, Isabel, sua bisneta e jornalista nova-iorquina, refaz o caminho da ancestral e se casa com Omar, sobrinho de Sharif e um palestino-egípcio que, apesar dos costumes ocidentais, segue a tradição familiar e o compromisso com a causa árabe. “Um romance não se sustenta apenas no amor, mas em outros acontecimentos que determinam a vida das pessoas”, ela diz.

É aí que entra a política em “O Mapa do Amor”, quando a autora pretende demonstrar como os acontecimentos do passado determinam o presente. Foram necessários dois anos de pesquisa para incluir os fatos da história no livro. O resultado foram uma indicação para o conceituado Booker’s Prize e uma série de críticas positivas, como da revista Literary Review, que a comparou a Gabriel Garcia Marquez e definiu o romance como “uma conquista triunfante”. O romance foi escrito em inglês e traduzido para o árabe por sua mãe, Fatma Moussa.

P - Como a sua experiência pessoal determinou a sua posição política e a literatura?

Ahdaf Soueif - A guerra dos Seis Dias, em 1967, influenciou uma geração de árabes. Sinalizou o fim do sonho de um mundo árabe unido com independência, dignidade e justiça. Nós ainda estamos sofrendo as conseqüências daquela guerra.

P - A literatura pode mudar o mundo?

Soueif - Não sei se a literatura pode mudar o mundo. Mas acredito que pode mudar a consciência individual e os indivíduos é que mudam a história. Também penso que, se o seu métier é escrever, então o que você tem de fazer é continuar escrevendo, fazendo perguntas que têm de ser feitas, atraindo o interesse de leitores para mundos e sociedades com histórias diferentes daquelas que eles conhecem. Assim, você pode ter a esperança de mudar o mundo do seu leitor - por enquanto.

P - Você acredita que essa deve ser uma obrigação dos escritores?

Soueif - Depende do contexto. Se você está em um país que não tem problemas nem se envolve com os problemas do mundo, suponho que poderia ser feliz escrevendo apenas entretenimento. Mas, se você está envolvido com o que ocorre ao seu redor, vai querer examinar os fatos, pesquisar em busca de soluções. E quem escreve ficção precisa entreter. Em outras palavras, você tem de manter seu leitor interessado, engajado, tem de fazer o leitor se preocupar com os personagens da história e sentir por eles e com eles. Seu primeiro trabalho é manter o leitor virando as páginas.

P - Esse engajamento deve ser passivo ou ativo?

Soueif - Eu acredito que os escritores deveriam escrever a ‘verdade’ em um sentido mais profundo. Eu, pessoalmente, prefiro os livros escritos com coração, habilidade e paixão, sobre algo com que o escritor está profundamente preocupado.

P - Qual foi a contribuição da literatura para o caso da Palestina hoje?

Soueif - Se pessoas como Amira Hass, Robert Fisk, Gideon Levy, Mourid Barghouti e muitos outros não escrevessem, como o mundo saberia o que acontece na Palestina? Edward Said fez mais do que ninguém para colocar a causa palestina na agenda de todos. Você escreve para aumentar a consciência, para insistir em uma humanidade igual e para fazer campanha por justiça.

P - Alguns criticam escritores palestinos por simplesmente atacarem Israel. Como você responde a isso?

Soueif - Eu pediria que lessem todos esses autores que estão produzindo a grande literatura palestina. Perguntaria se podem ler árabe e sugeriria que aprendessem árabe antes de fazer tal julgamento.

P - O seu ativismo tem origem na família?

Soueif - Tanto meu pai quanto meu tio (irmão de minha mãe) foram presos quando eram estudantes no fim dos anos 1940 (durante a monarquia egípcia) por pertencerem a organizações de esquerda. Minha irmã, Laila Soueif, é ativista do movimento por mudança nas universidades. Meu sobrinho, Alaa, esteve na prisão, no ano passado, em apoio ao Judiciário em choque com o governo do Egito Ele lidera uma website de ativismo ( Omraneya.net) com a sua esposa Manal - eles venceram o prêmio Jornalismo Cidadão, na Espanha, há dois anos. Meu cunhado, Ahmad Seif dirige o HMLC, que é um centro de assistência legal que serve de guarda-chuva para vários grupos ativistas no Egito.

P - E que forma crescer no Egito moldou sua escrita?

Soueif - Crescer no Egito dos anos 1960 foi crescer um país muçulmano, cristão, egípcio, árabe, africano, mediterrâneo, socialista. Acho que isso me fez sentir - nos ossos - que identidade nunca é apenas uma única coisa, que é sempre multifacetada, e que você pode sempre encontrar aspectos em outras pessoas que se relacionam com aspectos em você mesmo.

P - Você vive em Londres e não no Cairo.

Soueif - Mas volto para o Egito por três meses a cada ano. Meus leitores me dizem que é uma boa coisa para uma egípcia que suas vozes sejam ouvidas - através de meus romances - no mundo.

P - Por que escreve em inglês?

Soueif - Não tive escolha. Toda vez que eu me sentava para escrever as frases vinham em inglês, que foi minha primeira língua literária. Nós estávamos na Inglaterra quando eu tinha 5 anos - minha mãe fazia PhD em literatura Inglesa na Universidade de Londres. Então, o primeiro idioma que aprendi foi o inglês. Fiz PhD em poesia inglesa na Universidade do Cairo. Se o árabe foi o idioma da minha vida, a língua de minha formação literária foi o inglês.

P - Em “O Mapa do Amor”, porque você escolheu escrever sobre esse período particular da história do Egito?

Soueif - Queria escrever sobre o Egito contemporâneo, mas também estava interessada no período entre 1900 e 1910 simplesmente porque era o começo do século e também porque não é muito explorado. Entre as duas grande rebeliões de Ahmad Orabi em 1882 e Saad Zaghloul em 1919, havia um fervilhar de idéias artísticas e políticas , o Egito queria se livrar da ocupação britânica e ingressar no caminho da independência e modernidade. Foi um período muito rico, e relativamente não examinado.

Fonte: CruzeiroNet

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