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Caiu Na Teia

Carlos Lyra caiu na Teia!

18.09.08 | 1 Comentário

Desde que começaram a divulgar as apresentações do projeto “Segunda às Segundas”, realizado pela MdA International e patrocinado pela Metso, eu estava com comichão para ver e ouvir Carlos Lyra. Falar com ele, então, seria um sinal de que estamos no caminho certo. Pois não é que conseguimos?

Simples e muito simpático, Carlos Lyra nos recebeu na sala de estar do TMTV e falou sobre ser ou não ser o pai da Bossa e sobre a necessidade recente de se ter um patrocinador para que as cortinas se abram nos teatros e boates do país. Não posso falar mais, você tem que ler essa proeza da Teia Cultural! 

TC - Primeiro quero dizer que sou fã de Bossa Nova, faz tempo que acompanho muitas histórias, gosto muito, embora já tenha visto que há muita confusão em cima da história real, tem gente falando um pouco de besteira por aí.

CL - Inclusive esse livro tem algumas (Chega de saudade, de Ruy Castro).

TC - Esse livro deve ter algumas…
CL - Ruy Castro faz prefácio para mim. Ele me perguntou o que achava do livro, eu disse “Ruy, você deixou de comentar o aspecto social, econômico e político”, ele me respondeu perguntando por que eu mesmo não fazia um livro falando disso. Eu respondi que faria mesmo e perguntei se ele faria o prefácio e ele disse sim; então eu fiz o livro e ele fez o prefácio.

TC - E como foi passar de um músico compositor para entrar no mundo literário como autor?
CL - Pra falar a verdade, eu já tinha entrado para o mundo literário. Antes de ter escrito esse livro de música, o “Eu e a Bossa”, eu já tinha escrito dois livros sobre astrologia. Então eu já tinha a experiência literária de dois livros, e aí não foi difícil, não. Foi bom, foi legal, era uma coisa que precisava botar pra fora, é uma espécie de psicanálise.

TC - E essas psicanálises também eram feitas através da música?
CL - A música para mim é trabalho. O livro pra mim foi uma espécie de psicanálise, esse negócio de rever as memórias, passar a vida a limpo, então foi um pouco de psicanálise. A música, não. A música pra mim é trabalho. Aliás, não é nem distração. Pra mim diversão é cinema e literatura.

TC - Tanto que você já compôs músicas para vários filmes, para peças de teatro…
CL - É, trilhas de filmes, músicas para teatro, comédias musicais, inclusive uma comédia musical infantil.

TC - Recentemente, em entrevista para Teia Cultural, o Miéle comentou que vocês estavam planejando fazer um remake de “Pobre menina rica”. Vai acontecer ou ficará só no plano?
CL - É verdade sim. Eu tinha vários planos, gostaria até de fazer um remake do show que eu fiz com Vinícius e a Nara no Bom Gourmet. Éramos os três: o Vinícius contava a história, eu fazia os papéis masculinos e a Nara fazia os papéis femininos. Eu queria refazer isso… eu, minha filha e o Miéle. Mas aí, o Cláudio Botelho e o Muller, que fazem musicais, vieram me falar que queriam montar um musical para o ano que vem. Então parei com tudo.

TC - E vai ficar só assistindo ou vai ter participação?
CL - Essa eu vou ficar só assistindo, eu acho. Se convidarem, eu faço. Mas é difícil. Vai ter esses negócios de ballet, essas coisas… já estou um pouco velho para isso.

TC - Ainda existe Bossa Nova sendo feita ou já não existe mais a Bossa genuína?
CL - A Bossa Nova como ela nasceu, com aquelas características, hoje em dia não tem muita coisa não. Tem muito pouca coisa nesse sentido: tem o Celso Fonseca, por exemplo, tem a minha filha - ela compõe também faz música -, o meu sobrinho - mas já é um pouco da Bossa já pop, já é uma coisa feita com a visão da juventude.

TC - São composições que não possuem apenas a influência do jazz, mas várias outras influências…
CL - É, tem influências do Rock, do Pop… então, daquele jeito que ela foi concebida no princípio, a Bossa Nova clássica não se faz mais.

TC - E por que definhou esse tipo de produção - que realmente foi o que marcou a história, e no fim foi tão influenciada, se é que a gente pode dizer assim? Ela não existe mais? Ela morreu?
CL - Não, ela não morreu. O que acontece é o seguinte: nós vínhamos num embalo muito grande nos anos 50 e 60, que se tivesse continuado, talvez houvesse ensejo para isso. Mas o fato do golpe militar, em 64, ter atrapalhado toda a cultura e a educação, então as pessoas que apareceram fazendo alguma coisa ou estavam muito próximas de nós - como minha filha, meu sobrinho, o Celso que também era amigo meu -, ou então se perdia a coisa. E foi o que aconteceu: a educação se perdeu e não houve mais estímulo para as pessoas estudarem música, para fazerem, estudarem a Bossa Nova, até a língua portuguesa foi deteriorada. Então falta muito, por exemplo, para termos poetas como Vinícius de Moraes, e falta mesmo os letristas como eu e como o Tom Jobim. Começamos no princípio. Os primeiros letristas da Bossa Nova éramos eu e o Tom, não tinha o Vinícius ainda. Aquele coloquialismo da Bossa Nova, aquilo o Vinicius aprendeu com a gente pra falar a verdade, né? Quando ele começou a fazer, a gente parou porque não havia mais nada a fazer.

TC - Você acha que todo esse falatório que está rolando sobre os 50 anos da Bossa Nova significa real respeito pelo estilo da música da música em si, pela batida ou por toda representação histórica que ela teve, ou é mais um ensejo para um ataque comercial?
CL - Olha, eu acho que é um pouco das duas coisas, com certeza que é um pouco as duas coisas. Mas o ataque comercial tem outras coisas: se é pra fazer comércio puro, tem outras coisas mais vagabundas que poderiam ser utilizadas. A Bossa Nova ainda é um pouco séria. Se alguém ainda usa a Bossa Nova para comemorar, é porque ainda tem um pouco de respeito pela música, pela coisa cultural que ela é.

TC - E lá fora a Bossa Nova ela tem mais expressão do que aqui dentro, ou hoje já está mais equiparado?
CL - Com certeza. Até na época que a Bossa nova começou, aqui no Brasil era mais divulgado, acontecia mais, porque era uma coisa que funcionou praticamente dentro da geração. Então a geração toda de jovens da época até hoje estão aí gostando. É o público de hoje ainda são os meninos e os rapazes daquela época… os adultos de hoje. Mas o fenômeno se deve a uma coisa engraçada: a Bossa Nova é uma música de classe média, ela não é uma música popular. Ela é uma música, vamos dizer assim, popular, mas de câmera. Ela é sofisticada, ela tem melodia e harmonia inspiradas no Jazz, no Impressionismo, no Bolero, em outras músicas de classe médio do mundo, os compositores americanos… Então, por ser essa música de classe média, a Bossa Nova tem muito mais expressão na Europa, nos Estados Unidos, no Japão, que tem classe média poderosa, do que no próprio Brasil, que tem uma classe média arruinada.

TC - Carlinhos, Menescal e Bôscoli são tidos como os pais da Bossa Nova e em várias ocasiões observei você rejeitando a paternidade, dizendo que não é pai desse filho. Por que isso?
CL - Não, é porque esse negócio de pai da bossa nova é uma coisa que você confere uma paternidade que não é realmente a relação. Poeticamente, você pode. Assim, eu prefiro que chamem a mim, o Bôscoli de pais da Bossa Nova do que o João Gilberto, por exemplo, que não é pai de coisa nenhuma; ele é filho da Bossa Nova. Agora, os compositores são pais realmente da Bossa Nova. Porque na interpretação, como é o caso do João Gilberto… interpretar é um verbo altamente transitivo, porque quando o compositor compõe alguma coisa - o verbo também é transitivo, compor -, mas quando você compõe alguma coisa, você compõe alguma coisa que não existia. Agora quando você interpreta, interpreta alguma coisa já existente. Então, a composição é anterior à interpretação. É mais importante, entendeu? Por isso, eu acho o João Gilberto filho da Bossa Nova, não pai.

TC - Hoje em dia, com a internet, há mais facilidade de exposição dos artistas, na apresentação do trabalho deles, inclusive para conseguir patrocinadores. Essa ânsia por patrocínio existia naquela época ou era uma coisa mais livre, mais leve e solta?
CL - Não, o patrocínio é uma coisa que se faz necessário hoje, porque os gastos são muito altos. Antigamente, o teatro te chamava para fazer um show. Na boate, não era problema; até hoje, nas boates você faz. Mas, nas boates, chamavam a gente para tocar, que era geralmente um lugar elegante como o Bon Gourmet, e você sentava e estudava o salário para você tocar durante o mês inteiro ali; fechava o mês, fechava durante quinze dias, fechava uma temporada boa. Hoje já é complicado, porque você tem que colocar os músicos, e os músicos, hoje em dia, as boates já não se encarregam de pagá-los, porque é muito caro. Antigamente, a gente entrava no teatro e fazia um contrato, subia no palco, tocava e dava uma porcentagem para o teatro, ficando com uma parte. Hoje não pode, porque o aluguel do teatro é muito caro. Então você tem que ter um patrocínio, você tem que ter alguém que se responsabilize pelos gastos para você poder fazer o teatro. Para fazer uma boate, precisa-se de um patrocínio para pagar os músicos. Você tem facilidades como essa mais em São Paulo. Por exemplo, na cidade de São Paulo, eu tenho feito shows patrocinados, shows que as boates pagam, o teatro se responsabiliza, eu tenho feito isso. Mas o Rio de Janeiro está falido financeiramente, impossível.

TC - Você tem composto coisas novas, projetos em andamento, turnês?
CL - Eu tenho feito muita coisa nova. Agora mesmo estamos fazendo um disco novo. Eu, Marcos Valle, João Donato e Menescal, os quatro num disco só. Nós temos parcerias: o Donato toca na minha música, eu toco na música do Menescal, canto na música do Menescal, Marcos Valle canta na minha.

 

Carlos Lyra concedeu a entrevista durante a passagem de som, mas não resisti: fui ao show para vê-lo cantar “Minha namorada”, uma de minhas favoritas. Aliás, a apresentação deixou o público com sorriso de orelha a orelha, além das boas risadas ao embalo das histórias de Vinícius de Moraes, o homenageado da noite. Agora, só pra não deixar passar em branco, os comentários (qual seria o adjetivo?… babacas?) de alguns músicos a respeito das histórias contadas, gabando-se de já conhecer aquilo tudo porque “leu num livro”. Ora, as histórias eu também sei decor. Mas quem conta faz toda a diferença. Lyra encheu a noite de magia, voltando aos bons tempos da bossa e adicionando detalhes que jamais - eu disse JAMAIS - saberíamos se não tivéssemos ido ao show deste grande nome da Bossa Nova. Como diria um conhecido “a humildade é o verniz da beleza”.

Entrevista: Lívia Gusmão
Transcrição: Virginia Diegues
Fotos: Teia Cultural

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