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Caiu Na Teia

Marcos Valle fez o público esquecer o lamaçal. Por quanto tempo?

03.10.08 | Comente lá embaixo

Depois da enxurrada das 7 da manhã que fez a organização quase desistir, Marcos Valle subiu ao palco para a passagem de som por volta das 10 e meia - meia hora antes do show começar. O público, com cara de pinto molhado, foi se achegando e a ausência das cadeiras assustou um pouco. Pudera, aquilo não era uma festa de amassa-barro, já tinha virado a maior piscina de lama que Sorocaba já viu. Eu mesma fiquei envergonhada pela cidade, pois Marcos Valle é reconhecido internacionalmente e Sorocaba não é uma cidade qualquer. Como é que se mexe em tantos parques e praças e isso não acontece justamente em nossa promessa de praça de eventos? Enfim, não estou aqui para falar de política.

Tirando todos os contratempos, o show de Marcos Valle foi uma viagem na história da música popular brasileira. Passamos pela ditadura com “Viola Enluarada” - que não sei porque cargas d’água não contive minhas lágrimas… acho que a chuva resolveu se manifestar de outro jeito - até chegar nos anos 80′ com “Estrelar”, um hit que levantou as pessoas com o verso “Tem que correr, tem que suar, tem que malhar”. Aliás, Marcos Valle manteve realmente a forma e, no auge dos 65 anos, ainda tem as madeixas louras originais dos tempos da bossa.

A Teia entrevistou Marcos Valle, que falou sobre a Bossa Nova, a rivalidade com a Jovem Guarda e os novos bossanovistas que estão suingando após 50 anos da criação da batida da classe média brasileira.

Marcos Valle caiu na Teia

TC - Você sempre foi um compositor moderno dentro da Bossa Nova. Manter-se moderno foi uma tarefa difícil?
MV - Pra te falar a verdade, não, porque as minhas influências na música - que é do Baião, do samba, do jazz, da música negra americana - sempre esteve na minha música. Então o fato de ela ter se tornado moderna é uma coisa quase que normal. Não é que eu tenha procurado essa coisa de ser moderna, eu nunca procurei. Por essa mistura, ela se tornou moderna e atraiu o público mais jovem, depois atraiu um público lá fora. Eu nunca mudei nada, é uma coisa que eu faço muito confortável, que é o que eu fazia e é o que eu faço até hoje. Não tem nenhum esforço.

TC - A Bossa Nova e a Jovem Guarda, nos anos 60, eram uma espécie de rivais. A alienação pode ser considerada um ponto em comum entre os dois estilos?
MV - Eu acho que a alienação da Bossa Nova aconteceu até 64, porque a gente vivia um período de euforia no Brasil - Juscelino Kubitschek -, onde tudo era bom, tudo era sensacional e, logicamente, os compositores estavam pensando em música e não muito na parte política - a não ser os letristas. Mas você, como músico, pensa mais na harmonia das notas musicais. Mas quando veio 64 com o governo militar, a Bossa Nova começou a mudar muito as letras. Eu mesmo - com “Terra de Ninguém”, “Viola Enluarada”, “Gente” -, Carlos Lyra, Sérgio Ricardo, muita gente começou a fazer músicas, exatamente porque a gente percebeu o quanto era necessário isso. Já que havia aquela falta de liberdade de expressão, a Bossa Nova passou a ser um ponto importante na política. A Jovem Guarda já era uma coisa mais ingênua, mais inocente, então ela persistiu. A rivalidade que você falou, é engraçado, eu nunca tive, porque como eu já tinha essa abertura na música - por exemplo Erasmo Carlos é meu parceiro -, então eu nunca tive esse problema de ir um contra o outro. Eu penso sempre que música é uma coisa só, ou é boa ou é ruim, não tem que ter essa barreira.

TC - Então aquele verso que você fez em “A resposta” junto com seu irmão - “Falar de morro de frente pro mar não vai fazer ninguém melhorar” - ainda é fato ou o papel do músico e do compositor já tem um cunho social hoje?
MV - Essa música foi feita no momento que houve um rompimento na Bossa Nova quando começou o governo militar, e havia uma turma que achava que tinha que fazer só música de fundo social. Embora nós já tivéssemos feito - até foram nossas primeiras músicas “Terra de Ninguém” e “Sonho de Maria” -, a gente achava também que esse radicalismo, essa patrulha ideológica era uma coisa muito forte. Então, por exemplo, Vinícius, que sempre fez coisas líricas, teria que começar a fazer música de fundo social? A gente foi contra isso, por isso essa música foi uma resposta a esse radicalismo. Embora a gente também tenha feito uma série de músicas com fundo social, a gente achava que você tinha que ter liberdade para fazer o que te emocionasse. Podia ser a parte social ou não.

TC - A nova Bossa Nova é um privilégio da segunda geração ou existe gente nova fazendo Bossa hoje?
MV - Existe. Tem muita gente fazendo coisa nova usando a Bossa Nova. Eu mesmo fiz um DVD agora que tem o Marcelo Camelo, Mais Dois, tem o Celso Fonseca, a própria Adriana Calcanhoto. Tem muita gente que tem o toque da Bossa Nova hoje em dia e fazendo muito bem, e fazendo um grande elo entre a Bossa Nova tradicional e essa Bossa Nova contemporânea.

Galeria da Teia

Entrevista: Lívia Gusmão
Transcrição: Virginia Diegues
Fotos: Pedro H. Negrão

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