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Armando Coló Neto

O inverso do preconceito

16.10.08 | 1 Comentário

Essa coisa de julgar inferior algo ou alguém já me é conhecida. Colegas da psicologia, por caminhos mais extensos, mas nem por isso tortuosos, chegam a dizer sobre o receio de se ver inferiorizado consumindo esse tipo de matéria. Por que não podemos nos dar o prazer de ser menos, de ser mais ignorante, menos intelectual, inteligente? Podemos, claro, apreciar ou não, divulgar o que gostamos ou não, mas isso não significa estarmos presos a estas ataduras, direcionados a reverenciar apenas o complexo meio da cultura modista. Por que cultura é tudo, e não apenas o selecionado pela moda. Ou melhor, é quase tudo. Saindo do homem, qualquer comportamento, expressão, ato, é cultura. E não podemos tirar dos outros animais a categoria de seres culturais. Assim são quase todos que conheço. Ou acha que a formiga se organiza daquela forma simplesmente por razão nenhuma, por falta de opção ou criatividade? Ou macacos que quebram coco com pedras pequenas, tiraram de onde? Que nome se dá a isto?

E assim vamos, sempre nos excluindo, nos restringindo a seres grupais cada vez menores e mais restritos. Somos homens, não cagamos mais ao relento. Somos europeus, não andamos mais pelados. Somos plugados, não enviamos mais cartas escritas à mão. E, por fim, somos cultos, não lemos mais bobagens. Colocamo-nos então num recipiente muito pequeno onde cabe apenas eu, você e mais uns três ou quatro. O resto não é da mesma espécie. E logo mais nem servirá, esse resto, para se relacionar, muito menos procriar conosco. Fechamos o cerco e excluímos o que está fora dos vários recipientes que criamos na vida. E depois falam muito de baixar os preconceitos, em diminuir os muros socialistas, em globalizar as diversas culturas e tradições. Que pouca vergonha falar tal coisa, se nem mesmo o seu vizinho da frente lhe cheira bem o suficiente para um abraço. Guarde seus preconceitos bem guardados, diria aos réus, estão todos sob suspeita de assassinato, de ter matado a comunidade – palavra vinda do “comum”. Estão sendo acusados de ter matado o bom relacionamento com os próximos. Defendam-se agora, quero só ver.

Mais uma vez estamos aqui esbravejando sobre coisa alguma. Coisa nenhuma. Falo dos preconceitos dos outros, mas são nada, nem pó são, se para mim não causam presença. Digo isso para deixar claro que o que não me pertence, não me pertence e não merece tempo de reflexão. Mas se gasto tempo refletindo é por que estou na mesma canoa, remando para o lado oposto do meu camarada ao lado, que rema para o lado ainda oposto ao terceiro do barco, que rema, assim por diante, em sentidos contrários, em rumos mil onde nunca ninguém consegue dar a braçada para o mesmo lado. O barco não vai afundar não, ainda bem. Mas fica à deriva, no meio do oceano, há poucos metros de distância do segundo barco, há menos ainda do terceiro, mas nunca, nestes termos, terão real possibilidade de se encontrarem, de se tocarem, de rirem juntos a estúpida imagem pintada no quadro à mãos impressionistas: milhares de barcos, apoiando-se nas águas calmas de um oceano azulado, sendo tingidos todos pelo mesmo entardecer rubro-celeste, mas todos sós, individuais, como se fossem ilhas inertes que nunca tiveram e nunca terão a possibilidade de se mover para um ou  outro lado. Mas se enganam, pois as ilhas, todas elas, estão se movendo. Cada qual em seu ritmo lento, mas desde o início dos tempos caminham para algum outro lugar, diferente de onde se localizam agora. Por isso, nosso querido Saramago tinha razão em escrever, descrever a Jangada de Pedra. Um dia a península Ibérica há de se soltar do resto europeu e há de sair navegando pelos sete mares. E foi nesse estopim que as comunidades habitantes da jangada de terra, na ocasião Portugal e Espanha, aprenderam a se dar como seres essencialmente iguais.

Oxalá essa separação venha a se suceder aqui no nosso Brasil, país tão carente de identidade coesa e motivadora. País tão disperso em seu extenso território. Verdes e desertos aos montes, praias e montanhas, povos de cara, corpo, sotaque, cabelo, pele, tão diferentes e tão sós que em cada esquina poderia ser fundada uma nova nação. Se nosso país se descolasse do continente firme, peço eu a Deus que o faça deixando nossos vizinhos latinos grudados na Amazônia, no pantanal, nas cataratas e nos pampas, trazendo conosco toda a riqueza, beleza e diversidade dos países indígenas hispânicos colados à nossa história. Sejamos, com estes nossos vizinhos, uma nova nação equivalente, eqüidistante do ponto comum que todos nós mantemos desde o sétimo dia.

E ainda, se chocássemos com o continente africano, que juntemos as escovas, abracemo-nos feito amantes e juntos comecemos o que, sim, deveria ser chamado de globalização: a equalização dos seres viventes. Uma pena pensar que deverá haver um ou outro pedaço do planeta que não se aglutine a mais nova invenção e celebração humana: a paz. Um pequeno e direto embargo econômico resolve a questão. Vida a todos!

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