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Trio Curupira convida e arrepia

27.10.08 | Comente lá embaixo

19 de Outubro, um domingo de vento no Campolim, mas com trégua da chuva. E apesar da confusão do horário de verão, o público foi se achegando por conta da pluralidade rítmica da prata da casa, o Trio Curupira, e da companhia afinada de Izabel Padovani. Para quem acredita ainda em música para músico e que o leigo não entende essa “música cheia de notas”, é bom rever seus paradigmas. Boquiabertas, as pessoas curtiram a versatilidade desse trio formado por músicos multiinstrumentistas e pelo “badubauê” de Izabel. Enquanto André Marques tocava seu piano, levantando e sentando no banquinho, um senhor que estava ao meu lado soltava seus “ós” pelo evidente transe em que o músico se apresentava. Mais impressionado ainda ficou quando André e Fábio se revezaram na flauta e Cléber, que ainda transitava entre percussão e bateria, lançou mão da escaleta, que repousava tímida ao seu lado até então.

Na verdade, não há muitas palavras para expressar a experiência de assistir ao Trio Curupira, uma jóia sorocabana que está concorrendo ao Grammy Latino em novembro. Também não quero tentar explicar, porque quem não foi que acerte seus relógios para o próximo show. Aliás, se for na nossa praça de eventos no Campolim, tanto melhor, pois uma reforma está prevista para o início de 2009 e, felizmente, não teremos mais a festa do amassa-barro. Quem elegeu, que tome suas marcações na cobrança de ações.

Num clima descontraído, a Teia Cultural entrevistou a cantora Izabel Padovani e André Marques, do Trio Curupira. Veja só!

 

Izabel Padovani

Teia - Vivendo na Áustria, você foi mais influenciada ou influenciou mais?
IP - Eu acho que morar fora do Brasil me fez descobrir o Brasil. Foi muito prazeroso, foi positivo. Conheci um Brasil com uma riqueza cultural muito grande. Às vezes, encontramos fora do Brasil pessoas conhecendo mais da cultura brasileira do que a gente mesmo. Isso porque tem muito disco que é lançado lá e aqui não, coisas que nunca veremos aqui.

Teia - Por falar em influência, quais foram as suas no início da carreira e que se perpetuaram até hoje?
IP - Eu tenho uma família enorme de sete irmãos e um dos irmãos mais velhos cantava e tocava violão. Ele tinha um grupo que era amador, então sempre teve essa coisa musical em casa. Tínhamos discos dessas coleções da Abril Cultural, com Orlando Silva, Carmem Miranda, Nelson Cavaquinho… Então eu conheci uma música pré-bossa nova, por causa desse acervo e isso me influenciou muito. Depois, claro, a bossa nova, João Gilberto, Elis Regina… Mas, talvez, essa música pré-bossa nova seja o que mais me influenciou e, até hoje, eu não só gosto da influência como gosto de cantar essa antigas, que é um acervo que o Brasil esqueceu, porque você não ouve isso mais no rádio, nos shows.

Teia - Como foi sair do Brasil e levar sua música para o exterior? Você enviou algum material, esteve lá antes, ou foi com a cara e a coragem?
IP - Quando eu tinha 20 anos, fui a Áustria pela primeira vez, porque tinha um amigo meu pianista, o Marcelo - com quem eu trabalhava aqui no Brasil -, que morava e estudava lá. Então fui pra lá, mas não fiquei muito. Acabei morando na Itália nessa época, depois voltei para o Brasil e fiquei aqui por 10 anos. Depois voltei para a Áustria, novamente para me encontrar com ele para gravar um CD. Eu tive a maior sorte, porque eles começaram do zero e, quando cheguei, eles estavam lá há 10 anos. Já estava tudo articulado, ja conheciam tudo, e eu peguei só a parte boa de morar fora. Fiquei nesse vai e vem até o ano 2000 e, depois desse ano, eu passei a morar fixamente. Depois veio o Prêmio VIVO e, em função disso, voltei ao Brasil. 

Teia - Você e o André já se apresentaram juntos. Como foi essa afinidade musical que acabou se tornando uma amizade?
IP - Eu já conhecia o trabalho do Trio Curupira e, há um ano, eu e André fomos convidados a tocar juntos no aniversário do SESC Pompéia. Tocamos e adoramos, no divertimos e resolvemos continuar o duo. Durante esse ano, tocamos várias vezes e agora, no projeto da Metso, o Trio Curupira me convidou para participar do projeto com eles.

Teia - Tem CD para esse ano ou só para o ano que vem?
IP - Para esse ano ainda! Em outubro, começa o show de lançamento “Mosaico”, com compositores contemporâneos, uma geração mais nova de compositores. Tem quatro músicas inéditas e é um trabalho que mostra um pouco da produção atual no Brasil, o que está acontecendo agora. Vai ser importante e estou super feliz de conseguir fazer esse projeto com o patrocínio da prefeitura de Campinas, com fundos de investimento cultural.

 

André Marques - Trio Curupira

Teia - Vocês agora foram indicados para Grammy Latino, como foi receber essa notícia?
TC - Na verdade, foi um susto, porque a gente não imaginava quem tinham mandado o material, porque não tinha sido nenhum dos músicos do trio. Depois descobrimos que uma produtora que temos na Argentina enviou um CD pronto que ela tinha. Após alguns dias, soubemos que havíamos sido indicados.

Teia - Quando vocês ficarão sabendo dos resultados?
TC - Dia 13 de novembro.Vai ter uma simultânea em SP, que é onde estaremos.

Teia - Dá para falar de influências específicas no Trio Curupira?
TC - Acho que a mais clara é a do Hermeto Pascoal, porque nós três temos muito contato com ele. Quando entrei no grupo do Hermeto, acabou sendo uma escola para mim. Mas, fora isso, nós sempre procuramos ouvir todo o tipo de música, justamente para não ter só um tipo de influência.

Teia - A pluraridade rítmica do Trio Curupira é um dos fatores que abriram as fronteiras para o grupo no exterior?
TC - Acho que sim, porque na época que a gente começou havia poucos grupos fazendo isso. E a gente começou pesquisando muito, viajava bastante por todo o Brasil e, naquela época, não tinha muita internet, então para conhecer tínhamos que viajar mesmo. Fazíamos experiências com os ritmos, víamos o que dava certo e o que não dava, fomos pesquisando para passar para essa formação de Trio. Antigamente, ficávamos mais no baixo, piano e bateria, formação muito ligada ao jazz. Hoje em dia, a gente já toca outros instrumentos: flauta, percussão, escaleta… Queríamos pesquisar e, por conta dessas pesquisas, passamos para a formação de trio para tentar fazer uma coisa diferente.

Teia - Vocês têm o CD “Pés no Brasil, cabeça no mundo” lançado na Argentina. Por que lançar lá primeiro? Quando a gente vai ter o lançamento desse CD aqui no Brasil?
TC - Na verdade, não é que foi lançado comercialmente. Rolou um show de lançamento lá para a imprenssa, mas acho que vai sair aqui no final do ano. Inclusive, acho que também estará sendo lançado no Estados Unidos. Na Argentina, ficou uma prévia do show.

Teia - E os projetos paralelos, Quarteto André Marques e Vintena Brasileira, como estão?
TC - Estão “correria”! Tem dois CDs que eu lancei esse ano: um de piano solo, chamado “Solo”, e o da Vintena Brasileira, chamado “De Baque às Avessas”. A Vintena é uma orquestra de música instrumental brasileira nascida em Sorocaba, em 2003, e a gente está batalhando para conseguir mais shows. Inclusive, para a Vintena é um pouco mais difícil por ser muita gente, sempre tem que estar indo atrás de apoio, patrocínio, essa coisas. Mas devagar estamos conseguindo.

 

Texto e entrevista: Lívia Gusmão
Transcrição: Virginia Diegues
Fotos: Teia Cultural

 

Galeria
Fotos de Pedro H. Negrão

 

 

 

 

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