No último domingo, assisti ao excelente “A Origem”, com Leonardo Di Caprio (que está cada vez melhor como ator) e uma ótima atuação da Helen Page. E paguei para ver o filme pois sabia que seria beneficiado com mais um ótimo roteiro e a demonstração de que os niilistas estrangeiros, em matéria de estudos e pesquisas para seus filmes, estão dando um baile nos (pseudo) espíritas brasileiros. Calma que chegaremos no tema central da coluna, que é Cultura.
“A Origem” é um repositório de referências desconhecidas do brasileiro comum. Ali, encontra-se mais uma representação que a Sétima Arte traz dos estudos de pesquisadores notáveis, e dentre eles, não há como deixar de lembrar de alguns que são pontuais:
A Origem Psíquica
No filme – e não estragarei a surpresa de ninguém, podem ficar tranquilos -, logo no início algo fica claro: não se pode matar o Espírito. Uma vez fora do corpo, todas as sensações que nos vêm às percepções não são tácteis, auditivas, visuais ou o que quer que sejam: são psíquicas.
Tudo o que encontramos fora do corpo é criação – nossa ou de outrem. E isso justifica a observação de tantos investigadores que afirmam, sempre, a mesma coisa: não se deveria temer aquilo que nós mesmos criamos. Já no caso de estarmos envolvidos por um ambiente criado por outrem, fica o primeiro questionamento: até quando nos deixaremos ser dominados psiquicamente por outros seres? Afinal de contas, se o outro consegue construir um mundo, porque eu devo aceitá-lo sem sequer questionar?
O Labirinto: uma construção inteligente; e As Ideoplastias
É quando surge a pertinência do labirinto enquanto símbolo. Como informa Carlos Bernardo Loureiro, o labirinto é um símbolo associado ao desenvolvimento intelectual – mas, note-se, não apenas o fato de você conseguir escapar de um labirinto, mas o fato de você conseguir criar uma estrutura tão complexa.
A criação está de acordo com o nível intelectual do seu criador – isto é algo óbvio, trazido por Kardec e aproveitado por Bozzano. Não há sequer a mínima posibilidade de um ser sem condições intelectuais conseguir criar um ambiente tão complexo o organizado como o retratado na película. E, por favor, palmas para autor da história.
Isto só é possível devido ao fenômeno da Ideoplastia (ou seja, a plástica utilizando a idéia). É Bozzano quem dá à luz esse termo, que reflete o que Allan Kardec já trouxe em “Laboratório do Mundo Invisível”: o pensamento é força construtora; a vontade, força impulsora.
Nota: As pesquisas de Naum Kotik demonstram isso de forma tão clara – e eu, pessoalmente, tenho a satisfação de participar ativamente nas reproduções já numerosas destas experiências, no Círculo de Pesquisas Ambroise Paré (do Instituto de Cultura Espírita Carlos Bernardo Loureiro) – que já não é sequer admissível qualquer crítica que seja feita por nenhum ignorante do assunto. Em outras palavras, quem acha que isso é fantasia, recolha-se ao seu paleolítico universo de arenas de futebol, cervejas e rodízios de churrascos – um retrato do Brasil.
São formas de pensamento notáveis e tudo isto demonstra que estamos imersos em um universo cuja natureza psíquica ignoramos de maneira cavernosa. O que o filme erra por não observar – que estas ideoplastias nos influenciam ativamente mesmo em estado de vigília, e que a imortalidade é um fato (mesmo ilustrando um notável caso de obsessão e auto-obsessão) -, compensa por apresentar uma das mais notáveis demonstrações de pesquisa para produção de um roteiro.
A Sugestão Mental e o monoideísmo
Ao falar sobre a Sugestão Mental (no filme, “Inception” é a palavra utilizada e mal traduzia no título), é evocado um conhecimento que apenas Julien Ochorowicz trouxe até então: a necessidade de, além da idéia ser o mais simples possível, precisar encontrar no psiquismo a que se destina um estado receptivo: um estado crepuscular de “a-idéia”, assim chamado pelo pesquisador polonês.
Em nossa vida cotidiana, nós nos encontramos em uma condição na qual diversas idéias são manifestadas, encontrando resistências de nossa parte ou terreno propício para florescer livremente. É uma verdadeira guerra psíquica que travamos conosco e com outros psiquismos que, no mesmo ambiente que nós, não apenas nos sugerem pensamentos, mas deixam um rastro do que pensaram por onde passam – o que torna às vezes difícil definir quais idéias são realmente nossas, e quais nos foram sugeridas ou fazem parte da própria egrégora do ambiente.
Nesse estado, uma sugestão mental que seja contrária às nossas aspirações dificilmente vingará, e aquela idéia será combatida ou, simplesmente, posta em segundo plano. Mas uma vez que estivermos com as nossas preocupações postas de lado mas, ao mesmo tempo, com a atenção focada em uma só questão sugerida, então a coisa muda de figura.
E é esse o ponto crucial que o criador do filme soube explorar. Como somos sugestionáveis, como somos ainda incapazes de controlar os nossos próprios pensamentos; como somos, ainda, incapazes de construir nosso próprio universo, vivemos aceitando tudo o que nos é sugerido.
O outro lado da moeda
Antes do filme, porém, foi exibido o trailer de “Nosso Lar”. Se o livro já é sofrível, o filme conseguiu superar o disparate, ao trazer suas representações visuais.
Como já postulou Paul Gibier, o romance mediúnico é improvável, e não oferece nenhum material válido cientificamente. Afinal de contas, qual a evidência da existência dessa tal “Nosso Lar”? Quem diabos foi André Luiz? André Luiz de quê? Estudou o quê quando vivo: estudou Espiritismo? Ninguém prova nada – e todo mundo engole, facilmente, o xarope do romance mediúnico.
Os pseudo-espíritas brasileiros estão adorando a filmagem de “Nosso Lar”, que apenas alimenta o misticismo e denigre a imagem do Espiritismo. Ora, o que é “Nosso Lar” senão uma transposição da vida cotidiana materialista, embalada pelo céu católico? Tem até moeda, sistema de transporte e sopa…
Do outro lado, em “A Origem”, os niilistas continuam dando baile dos “espiritólicos” brasileiros – que, com certeza, sairiam do filme estrelado por Di Caprio sem entender bulhufas, por pura falta de referencial intelectual.
Se você, que está lendo esse artigo, está dizendo que “criticar ‘Nosso Lar’ desta forma é um absurdo” ou que “o filme ‘A Origem’ é apenas mais uma fantasia de Hollywood” (como o limitado José Wilker fez com “Avatar”, meus pêsames: você ainda gosta demais da cerveja, da arena e do churrasco para se preocupar esclarecer a dúvida se é, enfim, “um ser finito e mortal, ou um ser eterno e imortal”. Depois não reclamem dos seus governantes…
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“Um de nós tem que morrer!”
Até hoje, as palavras ecoam na minha mente. Foram pronunciadas pelo João Rotto, naqueles dias tão estranhos, tão comuns naqueles anos.
Lembro até hoje de sua face transfigurada. E de seu gestual típico. O jeito como ele usava as mãos em concha, retorcendo-as como um epilético, modulando-as no ar, sempre trêmulas. O jeito como ele costumava jogar o peso e a coluna pra trás, apoiando-se na perna esquerda, como fazem os astros de rock no palco. Porque João Rotto nunca saia do palco. A vida dele sempre foi um grande show de punk rock.
Tem também o jeito insano como ele sorria, como se não estivesse entre nós, mas dentro das próprias ideias. Um excêntrico. Um cara que sempre soava estranho, como se fosse alguém que ainda não entendeu a dinâmica do mundo. Alguém sincero demais pra ser considerado são.
Finalmente, tinha o jeito como ele olhava fixamente para um ponto, fazendo seus olhos injetados parecerem de vidro. Era assim que ele falava quando estava excitado por uma ideia, e foi quase assim que ele falou quando pronunciou a fatídica frase:
“Um de nós tem que morrer!”
Havia um quê diferente no jeito como ele a pronunciara naquela noite. Ainda era o mesmo. Os mesmos gestos. Os mesmos trejeitos. A mesma voz aguda e arrastada de brasiliense com ascendência cearense. O mesmo jeito louco de parecer. Mas no fundo disso tudo, havia, dessa vez, um certo nervosismo. Um certo descontrole. Um certo desespero.
Não era a loucura cotidiana dele. Era como se o louco tivesse surtado. Era como se ele tivesse virado um supersaiajin.
Uma série de fatores o haviam conduzido a esse estado psicótico.
O primeiro era o frequente abuso de certos psicotrópicos que ele vinha cometendo recentemente. era quase inacreditável a mudança radical que isso causava na personalidade dele. Era notável.
Rotto, embora louco, estranho, exaltado e exultante, costumava ser doce, amável e companheiro. Um doce bárbaro. Num segundo momento, porém, tornara-se irritadiço, bipolar e nervoso. Tenso. Andava com o olhar perdido. O que leva ao segundo fator:
Rotto andava obcecado pela morte. Especialmente pela morte precoce de grandes astros. Os velhos mitos. As velhas teorias conspiratórias. As velhas coincidências. Tudo isso o vinha perturbando poderosamente nos últimos e abstratos dias que vinhamos vivendo. BonhanJhonJimiJimJanisIanKurtBrianRenatoCazuzaCássiaDinhoSidTodoMundo. Todos os que tiveram mortes trágicas, lindas e geniais. Que tinham entrado para a história. Que nunca foram esquecidos. Todos os que, ele sentia, haviam depositado seus espíritos nele. Não era megalomania nem pretensão. Não era estupidez nem ignorância. Era apenas algo que o perturbava. Que o fazia perguntar, entre outras coisas: Morrer como um gênio ou viver até mais tarde? Eu sou um gênio, como eles? Não seria muito clássico morrer como eles? Existe essa necessidade? Viver pra quê? Morrer pra quê? Ser um gênio pra quê? What a hell I’m doing here? I don’t belong here… Porque, de certa forma, ele era um deles. Ou não. O que leva à um terceiro fator:
Estávamos passando por uma crise seríssima na banda. Que refletia e era refletida por problemas pessoais do Rotto.

por um certo ralapso que Não quer se identificar
O Matéria Fecal começou literalmente no cocô. Éramos garotos da periferia de Brasília que tinham o simples sonho de fazer um som. Tocar nos showzinhos, curtir com a galera, beber, conhecer gente, garotas, esse tipo de coisa. Intimamente, sonhávamos em ser astros, mas nunca levamos isso a sério, mesmo porque parecia um sonho muito distante.
Fui o último a entrar na banda. Entrei depois do primeiro baixista ter, bem… saído. Digamos que ele não tinha mais condições de tocar.
O guitarrista era o Angenor. Entre nós, ele ostentava maior repertório musical. Era o cara mais sério da banda, que amarrava nossas pontas. Nunca faltava aos ensaios. O que matava mesmo eram suas obrigações conjugais. Começara a namorar uma menina que, bem, tomava muito o seu tempo. Logo depois ela engravidou e, quando nasceu a Carla, filha que foi batizada com o nome da música do LS Jack, eles foram morar juntos.
O batera era o Jackson (leia-se Jáquisson). Fã de samba e de música brasileira, era o mais estudioso, seguido de perto pelo Rotto. Era também o mais sucedito em termos musicais.
A banda era bem reconhecida e nunca faltou showzinho pra tocarmos. Nosso “hit”, “Atentado ao Trabalhador”, era um hino no pequeno circuito underground. Pra ser sincero, era a única música que todos conheciam.
Logo gravamos nossa primeira demo. Embora eu ache que, até hoje, são nossas melhores músicas, com um punkrock/hardcore rápido, gostoso, crítico, cotidiano e com pequeníssimas pitadas grunge (a banda começou a tocar mandando Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e SoundGarden), só quando começamos a fazer outros tipos de composições é que realmente decolamos, um pouco.
A verdade é que começamos a crescer pessoalmente e aquele espírito punk rock já não fazia nossa cabeça. Amávamos as músicas, mas queríamos algo mais. O Jackson era viciado em música brasileira. Havia entrado pra UnB, pra Escola de Música de Brasília e estava sempre tocando em alguma dessas bandas de música brasileira por aí. Ele era o mais “cosmopolita”, tocando direto no Plano Piloto e em outras satélites. Tirava seu sustento daí e das aulas na Brazilian Music. O Angenor sempre fora um louco por MPB e, paralelo à banda, tinha uma carreira meio que folk, com sua voz e seu violão. Não compunha nada mas era um ótimo intérprete, ao ponto de interpretar músicas alheias como se fossem suas próprias. E ganhava a vida fazendo barzinho. O Rotto também estava na Escola de Música e na UnB, e estava conhecendo todo um mundo novo. Quanto a mim… bem; eu era o mais novo da banda, cerca de quatro anos mais novo que todo mundo.
O resultado não foi outro. Fizemos músicas mais adultas, gravamos um novo demo e conseguimos ser produzidos por um grande selo independente. Daí pra frente, começamos a crescer rapidamente. As novas músicas eram potenciais comerciais e vendiam como água. Os antigos fãs e amigos se ressentiam, dizendo que havíamos nos vendido. Mas conquistamos uma nova legião de fãs, que viam nas nossas músicas e posturas toda a verve revolucionária e social que faltara por toda a nossa década e geração. Como não conheciam a primeira fase da banda, consideravam nossas canções a fina flor da rebeldia. E, de certa forma, o eram.
A verdade é que nossa geração nunca teve um ídolo, um grande movimento, algo forte e memóravel. E, nesse cenário árido, surge a nossa querida banda como um arauto da salvação, um sinal de que nem tudo está perdido, de que ainda existe vida e vida em abundância. Um remédio que suprisse toda a carência. E, no alto do pedestal disso tudo, quem? João Rotto,com seu jeito de doido, suas frases de efeito, suas opiniões sobre tudo, suas entrevistas polêmicas, suas atitudes duvidosas e sua performance inesquecível. Ah! E o gestual típico. E vinha surfando na crista de uma onda muito importante e muito conveniente: O andergraundismo.
Em tempos de internet, de produções independentes cada vez mais fortes, de coletivos e mais coletivos surgindo e de ferramentas de produção cada vez mais acessíveis através de computadores, câmeras digitais e outros aparelhos, que ficavam cada vez mais baratos, a bandeira do underground foi um caminho natural.
No princípio, eram atitudes e iniciativas isoladas, que carregavam outras bandeiras e usavam o underground só como ferramenta. Mas, com o tempo, as pessoas foram percebendo que ser independente era o próprio ideal, caminho para a justiça social, a igualdade entre os seres humanos e os mais antigos anseios da humanidade. A produção independente transformava os indivíduos e as sociedades. E se tornou algo muito poderoso quando as pessoas começaram a se organizar em torno dessa bandeira e, principalmente, encontraram seus próprios inimigos, o que as fortaleceu muito.
E o Rotto… o Rotto era a própria encarnação do underground!
Por isso, ele rapidamente se transformou num ídolo, um messias, um garoto propaganda. Ele era carísmático e, toda a sua vida, militara em favor do andergraundismo, e sua vida e história eram a própria prova de que o sonho era possível. Sempre fora um grande produtor independente em sua vida, produzindo shows, projetos de educação, projetos políticos e, principalmente, sua própria banda, que era andergraundemente bem sucedida. Tínhamos um sucesso moderado, éramos conhecidos em todo o País e até no mundo, mas por comunidades pequenas e selecionadas. E estávamos num momento muito delicado do nosso jogo de xadrez.
Não tinhamos mais pra onde evoluir. Havíamos esgotado todas as possibilidades de propagação de nossas idéias e de nós mesmos. As grandes gravadoras estavam nos assediando e queriam porque queriam contrato conosco, nem que tivessem que nos dar uma tira de couro. Nem que tivessem que, sistematicamente, sabotar nossas ações e minar nossas possibilidades de desenvolvimento, como só as grandes corporações sabem fazer.
Se, realmente, nossa única intenção fosse ficar famosos e ricos, estaríamos feitos. As propostas eram ótimas.
Mas nosso ideal não era esse. O que queríamos era poder continuar tocando o nosso rock, viajando, conhecendo gente, bebendo estupefacientes, conhecendo garotas e propagando nossa mensagem andergraunde. Esse era o nosso espírito. Esse era o nosso estilo de vida, que pregávamos e vivíamos. O grande sonho andergraunde de viver e se sustentar daquilo que se ama. Estávamos felizes e realizados.
Mas, como sempre, só não havíamos previsto o imprevisto. O impasse. Não poderíamos viver assim pra sempre… e o que estava em jogo ali era justamente o nosso estilo de vida. Se não avançassemos para o próximo passo, nosso destino seria, já dali o víamos, o ostracismo e o esquecimento. E tudo o que conquistamos desmoranaria de vez. Mas o próximo passo era, justamente - sejamos sinceros - nos vender. O que, de uma maneira ou de outra, abalaria nossa reputação, arruinaria a fé de nossos companheiros, ameaçaria nosso estilo de vida e talvez aruinasse todo o movimento. O que os mais de 100.000 seguidores do twitter de Rotto fariam?
Rotto se sentia muito pressionado por causa disso. Mas do que todos nós, é claro. Ele não escolhera nada disso, mas inconscientemente fora adotando o pappel para si e assumindo o personagem. E agora se via nesse terrível xeque. O que o conduziu a todos os pensamentos sombrios anteriormente citados, que o levaram ao abuso dos psicotrópicos, que se agravaram pelos seus problemas com o sono, sintoma de sua antiga vida como trabalhador noturno no Corcovado 24hs. Rotto nunca dormiu direito a vida toda. Uma vez, numa entrevista, perguntado sobre seu maior sonho, Rotto respondeu: “Seria dormir, caso eu dormisse e sonhasse“. E a junção disso tudo o levou àquele estado psicótico e tenso em que se encontrava quando pronunciou a fatídica frase:
“Um de nós tem que morrer!“

Pelo mesmo ser relapso da imagem acima, Apenas conhecido como Espectro Maledicente.
Estávamos todos nós, os quatro, reunidos no sítio do Genô. Estávamos lá há cerca de um mês. Havíamos anunciado férias, por tempo indeterminado, em todas as mídias independentes que nos apoiavam e nos noticiavam. Os objetivos eram pensar sobre nossos próximos e decisivos passos, com muita calma, e trabalhar na produção do nosso quarto CD, ou o segundo oficial. Como ele seria lançado é o que descobriríamos depois. De vez em quando recebíamos visitas, de amigos e garotas, mas, em geral, éramos só nós quatro. em geral, Éramos Quatro. Me pergunto até que ponto o claustro precipitou os assombrosos fatos que se seguiram. Porque a tensão do momento pairava sinistramente no ar. Pensávamos e conversávamos quase exclusivamente sobre isso ou coisas afins, quando conversávamos. Pois, em geral, não conversávamos muito. Nem o Jackson, que era o mais falante. Quanto ao Rotto… praticamente só o víamos na hora das gravações e ensaios. Só comia no quarto dele e o resto do tempo estava passeando pelo sítio, andando de bicicleta, nadando no rio, olhando as estrelas, estudando astrologia, e, na maior parte do tempo, lendo aquelas terríveis biografias. Sempre mudo, introspectivo, sorumbático. Sempre com uma garrafa de ipióca ou cerveja na mão. O que nos deixava ainda mais tensos.
Mas o respeitávamos. Sabíamos que estava buscando uma solução. Sabíamos que seus ossos estavam crescendo mais do que o seu corpo. Talvez tivesse sentindo a chegada de Saturno. Sutil e poderosa. Se ao menos pudéssemos prever o futuro… não seríamos tão pacientes. Mas aquela tensão toda no ar nos deixava num estado hipnótico e transítico, e talvez por isso tenhamos encarado os fatos da forma como encaramos. Os dias eram cinzas e frios, mas estavam tão conectados a nosso espírito que nem sequer notávamos.
Foi assim que, um belo dia, quando estavamos eu, Genô e Jackson na beira de uma fogueira, o Rotto apareceu, com aquele seu jeito imersivo, na beira da fogueira e parou. Meio “comequieto”. A fogueira iluminava sua cara bege gerando um incrível contraste. Havia sombra em volta dos olhos e só se via seu globo ocular. Talvez por isso seus olhos tenham parecido tão iluminados quando seu rosto compenetrado se metamorfoseou, lenta e calculadamente, num sorriso de cientista louco prestes à fazer maldade. Uau… seus olhos…. estavam brilhantes, vermelhos, de sangue e de luz, insanos e insalubres. Não sei se refletiam o fogo ou o fogo os refletia. Só sei que, enquanto o olhávamos com expectativa, ele soltou uma intensa e descontrolada gargalhada, daquelas que a gente só vê em animes. Era uma gargalhada provocadora e enigmática. Foi quando ele apontou o crânio com o indicador e ficou cutucando vigorosamente, como se ele não soubesse medir a própria força, como ele sempre fazia quando tinha uma idéia doida, mas dessa vez amplificado pela insanidade como que por um p.a. de 12.
“HAHAHAHAHHA! Eu já sei! eu já sei moleque! Já sei o que a gente tem que fazer HEHHEHE!“
Perto do fogo, eu podia sentir… saía do seu olho e chegava em mim. Embora olhasse fixamente para o fogo. Embora não o olhássemos diretamente.
Genô permanecia dedilhando o violão. Então Rotto tirou o trinta e oito da cintura, apontou pra cabeça e cutucou exatamente como fazia anteriormente com o indicador:
“HAHHHAHAHAHHAHAHAHAH! Um de nós tem que morrer! É isso! HHAHAHA!“
Angenor quase caiu da cadeira. O Jackson só ficou sentado com uma cara séria de bêbado. Eu mal conseguia me mover. Até então, nunca havia visto uma arma.
“Que porra é essa, Rotto?“,
bradava o Angenor.
“Onde é que cê arranjou isso?“
“Consegui com o Brendo, do Alvejante, HAHA. Não é engraçado? O alvejante ajuda a matar a Matéria Fecal HAHA! Dá até manchete!“.
Suas gargalhadas assustavam. Era como se ele não estivesse ali. Como se estivesse possuído.
“Bicho, para de mexer com essa porra, véi. Cê vai nessa onda do Brendo e vai acabar se ferrando igual ele. Ele é muito gente boa, é um broderzão, mas escolheu mexer com as paradas erradas. Qualquer dia desses vai parar no ‘Paraíso das Almas’ que ele tanto canta.“
“Porra nenhuma, Genô.Porra nenhuma. A culpa é do sisteeee-MA! Ele só pediu pra guardar. HAHHAAH! Mas vai ser a nossa solução, moleque! Sabe por quê? Porque um de nós vai morrer hoje à noite e a gente vai ficar famoso pra caralho, HAHAHA! É genial! Um de nós morre e nossa banda entra pra história! Todo mundo vai nos paparicar e nossas vendas vão aumentar. A gente não tem que fechar com porra de gravadora nenhuma! HAHA! E o Andergraundismo vai ter um grande mártir, quem sabe um santo pra sair convertendo o mundo todo! HUHU! Nós so-mos ma-té-rias FECAIS! tun dum! turuduruduru Tum Dum! HAHAHAH!
O plano fazia todo o sentido. O momento era ultra propício. Estavam todos atentos ao que faríamos. Os holofotes estavam virados pra nós. Embora fossemos celebridades menores. Rotto era uma celebridade conhecida por todos mas ignorada por muitos. E se, de repente, ele morresse trágicamente, em circunstâncias completamente absurdas? O País todo se comoveria. Teríamos mídia gratuita até o fim do outro ano. Até lá estaríamos ricos. Eu até poderia escrever um best seller. O plano era perfeito. Lógico.
Só o que não fazia sentido era… matar um de nossos amigos por causa disso.
Apesar disso, o clima estava muito propício. Propício para a morte. As coisas pareciam demasiado insuportáveis. Olhando pra trás, eu vejo o quanto todos os problemas eram pequenos. Mas na ocasião… eles eram maiores do que nós. E nós éramos demasiado sensíveis. Acho que por isso e pelo fato de eu ter levado tudo como uma grande brincadeira séria, além do estado emocional de Rotto, me levaram a encarar tudo com um certo ceticismo. Além do mais, eu era jovem e impressionável.
O Genô tentou ser enérgico. Foi pra cima de Rotto com tudo, mas ele deu um tiro pro alto, deixando Genô paralisado de susto. Apontou pra Angenor e, quando eu olhei pra sua cara, sua expressão era a pura ira.
Genô recuou, obviamente. Eu ainda paralisado. Jackson completemente bêbado.
“Deixa dessa idéia estúpida, Rotto. Você não é o Sid Vicious não, moço.“
“Bora ver… HAHHAHA!”
e colocou o revólver na têmpora.
“Pensa, Genô, pensa. Pensa na sua filhinha, Angenor!“
“Não mete a minha filha nisso, véi! Eu não vou admitir!“
“bem“,
continuou o Rotto,
“De qualquer forma, eu não estou pedindo a opinião de vocês. Eu já tomei minha decisão. Só queria compartilhar isso com vocês e queria que vocês soubessem e… que vissem. Adeus, amigos, foi um prazer tocar com vocês.“,
disse ele colocando a arma na cabeça, e ia puxando o gatilho quando…
“Espera!“,
eu gritei, desesperado.
Todos olharam pra mim daquele jeito que sempre acontecia comigo em qualquer tipo de reunião, seja de escola, trabalho, arte, banda ou qualquer outro tipo. Tenho o hábito de me manter calado, pensativo, nessas ocasiões. Em determinados momentos, decido falar. Nesses momentos, sempre todos ficam atentos e silenciosos olhando pra mim. Era bizarro, constrangedor, mas já estava acostumado. Foi o que aconteceu naquele momento.
“Eu…“,
hesitei. Exultei:
“Eu morro.”
Um pesado silêncio se abateu. Então o ébrio Jackson se manifestou, com a voz embolada e cuspindo, sem nem olhar pra nós, como se estivesse cego de vodka:
“Não, não vai não. O que seu pai vai falar? Você não!”
“Por que não? Eu sou o mais novo e sou o músico mais dispensável da banda. E… Se o Rotto morrer… A banda já era… e o movimento já era. Mas se eu morro… vai ser comovente por eu ser novo e tal, mas a banda continuará sem mim. Além do mais… vocês sabem muito bem o que eu fiz com o primeiro baixista, quando…“
“Calaboca!“ ,
bradou o Jackson.
“Você não fez nada, porra, cê sabe disso.“
“FIZ SIM, Jack, cê sabe muito bem que eu…“
“NÃO FOI CULPA SUA, PORRA! Você não matou o Elomar!“
“Matei sim! MATEI SIM, Você sabe muito bem!”
as lágrimas rolavam grossas e as lembranças vieram com força.
“Eu… matei ele… Eu nunca esqueci isso, caras, eu nunca esqueci isso. Eu sou mau, eu queria ser bem mas sou mau e… As pessoas fazem bem pra mim e eu só faço mal pra elas… eu tento fazer bem mas eu só faço mal… O Rotto me trata bem e eu trato ele mal! Essa é a minha chance de me redimir com ele… e com a banda! ahu! E vocês… Não podem me tirar isso! Ahuhuc! O… O Rotto está absolutamente certo! UM DE NÓS TEM QUE MORRER! E eu quero que seja eu > AHUhu! Ahuc!<!“
Todos ficaram calados. Eu fiquei chorando. Então o Genô gritou:
“Vamos parar com isso, ok! Ninguém vai morrer aqui, ninguém, isso não passa de loucura de vocês”.
“Porra nenhuma, Genô. Cê só sabe falar isso. Taá veno não? Essa é a salvação da banda, cara! A salvação da humanidade toda! Além do mais, você é o principal motivo e atingido disso! Pense na sua filhinha, Genô, pense na sua filhinha! Você nunca mais vai passar aperto pra criar ela… E vai poder vê-la quando quiser! Não vai mais ter que ficar meses na estrada longe dela! Vocês podem… Vocês podem até comprar um jatinho! Você quer ser um péssimo pai pelo resto da vida, seu nariz de platina?“
Os olhos de Rotto brilhavam oníricos, cínicos. Os olhos de Genô esbugalharam clínicos, críticos:
“Eu não admito isso, Rotto.“
E agora quem se debulhava em lágrimas era ele.
“Eu >hic< não admito que ninguém fale que eu não cuido bem da minha filha pra ficar me…! EU AMO MINHA FILHA! >ahuc< Mais do que tudo! Mais que essa banda de merda! Mais que você, Rotto! Não admito! Já não basta o meu pai! Não usa minha filha contra mim não, bahia, por favor! >ahuc<!“
Ele estava tão perturbado que tropeçou numa planta e caiu pra trás.
“Só estou pensando no nosso futuro, Nô!”
“Então, Rotto… Se vc pensa tanto no sustento da minha filha, porquê não fechamos os contrato com a gravadora?”
“NÃO!”.
Foi assombroso. A voz de roto saiu rouca e cavernosa, como a de um Deus de desenho animado.
“Já disse! O que está em jogo não é só a sua filha! É futuro de TODOS! ENTENDEU, porra! Um de nós tem que morrer, e um denós VAI morrer hoje! Seje eu, seje ele, seje qualquer um! >Rnnf, rnnf, rnnf<”
“Então…”
disse o jackson, se levantando,
“Então eu vou! Eu já tou fudido mesmo… Tou só o pó…. Ninguém vai nem sentir falta.. quer dizer, muita gente vai sentir falta, meus milhares de amigos, mas ninguém vai se surpreender! Deixa que eu vou, porra!”
Agora eram três lunáticos querendo morrer. A verdade, a grande verdade é que, além de querer salvar a banda ou o movimento ou o mundo ou a filha ou o que seja, nós queríamos salvar a nós mesmos. Intimamente, queríamos realmente morrer. Acho que, no fundo, no fundo, no fundo, todo mundo tem uma vontade secreta de morrer. Por curiosidade ou por ser muito confortável, já que viver é tão estranho. No fundo, estar morto é mais natural do que estar vivo, tanto é que a natureza nos empurra naturalmente pra esse destino, tal como a lei da gravidade faz tudo cair. E a situação toda foi o impulso que faltava para liberar nossas aspirações mórbidas e desejos mais secretos. Afastados da civilização, dos amigos e da família, então, a decisão se tornava mais fácil. Além do mais, acho que já tinhamos cansado de viver, tanto que já tinhamos vivido. Estávamos sendo mais egoístas que altruístas. Era catártico.
“O que está acontecendo, gente?”,
clamava o Angenor.
“Por quê vocês querem morrer?”
“Porque é o nosso destino, Genô.”,
eu disse, filosófico. Sempre me ocorrem essas palhaçadas nessas horas.
“Porque tudo que é vivo morr–”
“Não vem com poesia agora não, véi. Eu me recuso a participar disso! Me recuso!”
“Se recusando ou não, Genô, a gente já está decidido. Alguém vai sair morto daqui!”
“Viver é uma dádiva fatal, Rotto. Lembra? No fim das contas, ninguém sai vivo daqui. Mas vamos com calma! Vamos com calma!”
“Viu! Você está citando um cara que se deixou matar pela AIDS! Ele deve ter passado pelo mesmo que nós! Por que não deixar as coisas acontecerem como devem ser, Gê?”
Gê respirava fundo e pensava. Seus olhos estavam vermelhíssimos. Ele não podia contra um bêbado, um moleque e um doido armado. Algum tipo de Five to one, baby, one in five. no here gets out alive. Então, com um soluço, ele chorou:
“Vocês fazem o que vocês quiserem! Eu vou embora daqui! Hic! Espero ver vocês de novo algum dia.”
Pegou o violão. Deu um beijo, um abraço e um aperto de mão em cada um de nós e saiu em silêncio. Em poucos minutos ouvimos o barulho da moto partindo.
“Bem…”,
disse o Rotto,
“Agora somos só nós. E temos um impasse. Um de nós tem que morrer. Mas quem?”.
“Não temos impasse nenhum.”,
eu disse.
“Por quê? Você acha que só você tem o direito de morrer, é? Eu sou o mentor da banda, eu tenho que morrer! Vai ser mais genial assim! Genial!”
“Eu tenho uma proposta pra tornar as coisas justas.”,
disse eu calmamente. Eles me fitaram. Continuei:
“Você tem um trinta e oito… Ele é muito sugestivo. Acho que vamos nos divertir um pouco.”
“Que porra de divertir o quê, moleque…”
“Calma, Rotto. Nós só vamos jogar um jogo…”
“Que porra de…”
“OUVE, DESGRAÇA!”
“…”
“Fala.”
“Simples. Vamos jogar roleta russa. Quem perder, ganha, no ato.”
“HA. HAHA. HAHHHAHAHHHA!”
Achei que ele ia me tirar de tempo. Pra meu desespero, ele levou a sério:
“BOA! GENIAL! HAHA!”,
dizia Rotto, efusivo, apontando o cérebro com a arma, naquela pose.
“Genial, de onde é que cê tira essa coisas, hein, mulek?”
disse esfregando a mão no meu cabelo como costumava fazer comigo.
“Muita literatura barata…”,
eu repondi.

Mais uma do espectro. Uns dizem que ele é o Dr Manhattan outros que é uma particula Sub-atomica. o que se sabe é que ele é a perna que falta na mesa.
Os caras toparam. Era perfeito. Jogaríamos a roleta, e a sorte, ou a morte, escolheria seu eleito. O trinta e oito tinha seis compartimentos. carregaríamos apenas um. Jogaríamos a primeira rodada e, se ninguém fosse premiado, rodaria mais uma vez, começando do primeiro. As chances eram identicamente iguais, e seis disparos seriam efetuados. um estaria premiado, indefectívelmente. Alguém teria que morrer. De qualquer jeito. O tiro seria efetuado pelo próprio jogador. Quando se consumasse, os outros ligariam pra polícia e diriam que foi suicídio.
Então sentamos em roda em torno da fogueira. Perto do fogo, como na Idade Média. Tudo acabaria como começou: Ao som de Pearl Jam, que estava rolando dentro da casa, já que alguém tinha deixado o som ligado.
Sentamo-nos em torno da fogueira, olhando-nos nos olhos. Tiramos no Jo-Ken-Po quem seria o primeiro. Nessas horas sempre me ocorrem essas palhaçadas.
O primeiro seria o Jackson. Em seguida eu. E por último, o Rotto.
Rotto pegou o revólver. Carregou com a única bala. Girou a roleta e respirou fundo. Entregou a arma pro Jackson e uma garrafa de vinho pra mim.
“Bebe aí, rapaz, pra tomar coragem”.
Olhei bem para a garrafa e ela olhou pra mim, sorridente. Pensei:
“Foda-se”.
Foi a primeira vez que eu bebi. Foi a primeira vez que eu xinguei. Baudelaire me veio à memória.
Jack pegou a arma. Ele nem sabia pegar direito. Engatilhou o revólver. Beatles me veio à cabeça. Jack mirou sua cabeça. Ele olhou bem pra nós e disse, trêmulo:
“Cerveja! … Eu te amo até na hora de vomitar!”.
“click”.
Ainda bem que ele não morreu. Seriam péssimas últimas palavras. “Eu Sou o Deus Dourado” soaria melhor. Ele me passou o trêsoitão.
Engatilhei. Foi mais fácil do que pensei. A arma era mais pesada do que pensei. Mas, à queima roupa, não tinha como errar minha própria cabeça. Mirei. E fiquei pensativo. Eu sempre me descontrolo e começo a imaginar cenas além da que estou vivendo. Me vi morrendo. Vi o enterro. Eu chegando no céu. Eu fazendo uma revolução no paraíso. Eu sendo expulso do paraíso. Eu com uma arma na mão pensando na morte da bezerra, que era onde eu de fato estava. Pensei no garoto que eu havia matado. Por pura cobiça. Pelo mais obscuro desejo de tocar junto com o Matéria Fecal. Tecnicamente, eu não o matei, mas… O deixei morrer. Dava na mesma. Então eu vi mais uma vez os olhos dele, suplicantes, olhando pra mim, com seu contrabaixo nas costas. Aquele que eu usei por anos. Vendo isso uma vez mais, não tive a menor dúvida. Num espasmo, puxei o gatilho, sem hesitar:
“click!”.
Nada aconteceu. Merda.
Fiquei em transe. Rotto tomou a arma da minha mão.
Apenas olhou pra nós e disse, com veemência, como se tivesse certeza de que iria morrer:
“Vocês vão pegar o nosso cd, todas as gravações que eu fiz, e vão lançar ele depois que eu morrer, certo? Aí deve ter material pra lançar um disco “V”, um “Sgt Peppers” e um “Nevermind”, além de vários box. Falou. aprendi muito com vocês. Foi um grande prazer tocar com vocês.”
“BAM”.
Fade out to black.
…
Até hoje não assimilei completamente. Foi muito surreal. Ele estava lá, vivo, psicótico e, de repente… Os pedaços da cabeça rota de jhonny pelo chão. Era como se nunca tivesse existido. Entrei em choque imediatamente. Só acordei depois, no hospital.
Até hoje, em entrevistas, eles sempre perguntam pelo mesmo assunto: João Rotto. A maior celeridade morta de todos os tempos da terra Brasilis. O cara que revolucionou tudo. Até hoje não deram muita atenção pra minha obra literária, mas meu livro “Atentado ao Trabalhador: Minha vida com a ‘Incarnação do Andergraunde‘” tornou-se um grande best seller, e me rendeu dinheiro suficiente para ter uma aposentadoria digna e uma vida tranquila ao lado de Carla.
Hoje, sabemos que Rotto tinha planejado tudo desde o início. Ele tinha roubado.Ele conhecia um truque. Mas quem sou eu para destruir o mito?
É tão estranho… Os bons morrem antes. Assim parece ser quando me lembro dele, que acabou indo embora cedo demais…
***
Epílogo:
A morte de João Rotto mudou o mundo pra sempre. Ele só tinha 27 anos.
FIM.
devana babu
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Há horas em que não importaNo tempo do seu voo,
tanta coisa acontece que,
ao chegar em seu novo destino,
ninguém reconhece aquela parte
que se descolou do tronco.
Do mesmo modo,
há quem creia que todas as folhas são iguais.
Para estes, não importa se é velha ou nova,
todas têm a mesma forma, o mesmo cheiro
e o mesmo destino de apodrecer.
Mas toda folha sabe:
de onde veio,
onde gostaria chegar,
quais passos dar até ali.
E alimenta, dentro de seus veios,
a esperança bela de voltar a sentir
o respeito e a seiva
que só a velha árvore lhe pode dar.
-Droga, que frio. Vento desgraçado.
O escrivão de polícia fechou a janela e dormiu um sono pesado.
Sonhou com um terremoto na delegacia. Todos os presos haviam fugido e um gritava: “iremos te pegar cara. Iremos te matar”.
Acordou com a cortina da sala batendo em sua cara. O vento havia aberto a veneziana que não fora bem fechada. “Só pode ser um furacão”, pensou aturdido. Lá fora avistou uma garota. A sua vizinha que acabara de mudar. Era mais uma que mudara em pouco tempo para aquele prédio. “Será que é no andar aqui em cima?”
A questão já tinha sido formulada em sua mente mais de cinco vezes no último ano. “O que diabos acontece com as pessoas que moram nesse apartamento em cima?” Era a outra questão. A resposta Teo ainda não tinha até por que nem tinha tempo de investigar isso. Nem mesmo era sua profissão, investigar.
Continuou olhando pela janela. Agora tinha abaixado o vidro e pensou como era azarenta aquela moça. Mudar com um frio e vento daqueles e ainda naquele apartamento que expulsava todo mundo.
Meio zonzo de sono, afinal trabalhara vinte e quatro horas, direto e dormira apenas uma hora, olhou para o relógio e viu que precisava dormir mais.
-Meu Deus, que coisa, preciso dormir. – Ele balançou a cabeça. Precisava dormir mas sentiu que agora era questão de honra: agora precisava saber o que aconteceria naquele apartamento de cima do seu.
Vestiu seu sobretudo, lavou o rosto com um pouco de água e sabonete líquido e subiria a escada.
Ouviu vozes no elevador, antes de subir. O zunzumzum era cada vez mais próximo. Como estava na 7º andar parecia que as pessoas que falavam estavam no 2º. Era a garota, com certeza, pensou. Mas não estava sozinha. Ouviu uma voz de uma senhora mais velha e havia uma discussão muito forte.
-Você não pode controlar a minha vida dessa forma, mãe. Você não sabe o que está dizendo. Nem mesmo viveu comigo para saber.
Teo parou. Não poderia subir agora. Decidiu ficar no andar de baixo. Queria saber mais sobre a moça e aquele era o momento. Afinal de contas o que você pretendia fazer, Teo subindo para o andar dela? Realmente concluíra que não tinha nenhum dom para investigação da vida alheia.
Para sua surpresa a garota desceu no andar de cima, mas sua mãe não. Ele ouviu a moça se despedindo com gritos de “vai embora sua maldita dos infernos”.
Indeciso entre subir naquele momento para recepcionar a garota, e assim aproveitar o êxtase para saber o que acontecera, e outra possibilidade de esperar um momento mais calmo para saber algo depois, decidiu subir.
Foi lentamente deixando degrau por degrau para baixo assim como o medo de conhecer o misterioso andar de cima. O desconhecido para ele era a vida alheia. Preso a papéis e boletins de ocorrências, a vida das pessoas apenas passava em seus dedos digitando um fato de desespero ocorrido com elas. Nunca havia presenciado a história de verdade. O prazo era curto para a digitação. Tinha que entregar vários boletins em uma hora apenas, pois era cobrado pelo delegado para digitar rápido e se cumprir o lema de se “desfazer logo do cliente”.
Nas únicas vezes em que poderia ter a chance de saber de algo como uma mãe que chorava pelo filho preso, por exemplo, o delegado chegava e levava a moça para a sala dele.
Tudo isso passava pela mente sonolenta de Teo, ao subir os degraus de seu andar.
Em cima poderia conhecer uma história, afinal. No seu serviço, nunca. E poderia dizer algo sobre o apartamento para a moça. Algo como “cuidado com esse apartamento, pois, há algo inexplicável: várias pessoas mudaram dele no último ano em que moro aqui, imagina quando não morava. Não sei o que acontece aí dentro”.
Ela estava abaixada, pegando uma caixa de papelão lotada de algo que parecia roupa. Não conseguia levantar direito. Apesar de alta a moça era esguia e fraca.
Era loira natural, de estatura mediana. Seus olhos grandes e assustados avistaram Teo que fizera um barulho ao subir a escada.
-Olá, dona, pode deixar que eu a ajudo.
Ele veio com as mãos estendidas e evitou a pergunta de se podia ajudar, pois já sabia que a moça estava nervosa e, atrapalhada, aceitaria a ajuda, se não perguntasse.
Ao tentar pegar a caixa foi interrompido com um tapa na mão.
-Não mexa aí cara! Não dei minha permissão.
Teo se afastou com o olhar de louca da garota de, aproximadamente, 25 anos.
Definitivamente percebera que sua magreza não era natural. Era caso de drogas com certeza. Já tinha visto isso em seus boletins. Ao menos para alguma coisa serviu seu trabalho. Quando colocava o título do artigo da lei em que se enquadrava o crime e via algumas fotos, logo depois, para fechar o inquérito, percebera que as drogas deixavam a pessoa magra. Sim era drogada.
-Tudo bem, desculpe! –disse desconcertado.
-Quem é você, cara, para achar que pode ir mexendo em minhas coisas, disse Diva empurrando a grande caixa com os pés para dentro do apartamento.
-Não sou ninguém. Sou apenas o morador de baixo do seu apartamento, disse Teo, levantando a mão direita.
-Certo. Que bom. Tenho um vizinho enxerido idiota.
Diva deu de ombros pegando a trouxa de roupas que estava no chão. Jogou em seguida para dentro.
-Bom, muito prazer, moça. Só vim para dizer que se precisar de algo pode contar comigo.
-Certo, certo, tudo bem, tchau. Ela bateu a porta com toda a força do vento que batera a porta de Teo. Ela é como o furacão, pensou.
-Mais uma vez aquele tormento se repetia na mente do escrivão. Sempre que tentara fazer amizade com alguém era tratado daquela forma. Estava decidido. Iria ao psicólogo do Estado. O governo tinha que oferecer algo para um funcionário depois de 10 anos de serviços prestados. Não conseguia se socializar mais. Era solitário. Sua mãe e seu pai haviam ficado a quilômetros de distância na cidade de Manaus, desde que havia passado no concurso para escrivão de polícia no Estado de Santa Catarina. Não tinha como conversar com ninguém. Não conseguia ninguém que o ouvisse.
Desceu as escadas, voltando ao estado anterior. Voltou ao seu apartamento. Fechou-se para o mundo como era seu costume. Deitou-se novamente e não conseguia pregar os olhos.
Levantou-se com um barulho de uma janela batendo. Saiu na sua janela e olhou para cima. Viu que a moça do andar de cima havia estreado a janela. Bateu com força e só naquele momento percebera que havia uma presilha para segurá-las. Prendeu-as e olhou para baixo acenando para Teo com um sorriso raivoso. Teo retribuiu sem graça.
Era um contato, enfim. Ela talvez tivesse se arrependido. Era isso. Ele ficou feliz. Decidiu não procurar nenhum psicólogo. Conseguiu um contato com a garota. Algo estava mudando em sua vida. Continuou olhando para cima e viu a garota entrar tirando a raiva do rosto e o sorriso ficou natural, amistoso. Com certeza era um pedido de desculpas. “Ela estava nervosa seu idiota”, pensou. “Que momento para você conhecer a moça”. Com o sentimento de vitória, na janela, olhando para o terreno não edificado ao lado de seu prédio, Teo pensou que vida começava. Contemplou um passarinho levar comida para seus filhotes em seu ninho. Contemplou as palmeiras em um balançar vívido, pulsante como seu coração. Concluíra que as coisas aconteciam de uma forma ou de outra. Bastava tentar. E ele fizera isso.
Dormiu bem aquela noite e nos três dias seguintes que faltavam para o fim de semana não ouviu nenhum sinal da garota lá em cima. Saiu várias vezes na janela para olhar para cima e não avistava a moça. Aliás a janela nem sequer abria.
O fim de semana chegou. Aos sábados Teo costumava ler, após a limpeza de seu apartamento pela faxineira, Dona Maria, que fazia o serviço toda manhã. Não se permitia ter abertura com ela além de dar instruções de o que precisava ser limpo e arrumado.
Esticou-se no sofá. Abriu a janela e, enfim, avistou a moça. Ela não estava vestida, notou. A moça olhou para baixo e o cumprimentou sem a mínima vergonha.
Ele respondeu e acenou, sentindo sua face se corar.
-Tudo bem, vizinho?
-Sim, sim, tudo.
-Então tá bom, até logo.
-Até.
Como assim? Até logo? Teo ficou perplexo com a situação. O que ela fazia nua em casa e acenando para ele sem a mínima vergonha. Não sabia responder isso e tinha que tirar essa dúvida. Desceu e teve uma idéia muito comum: perguntou ao porteiro. “Como não pensou nisso antes, seu idiota, Você é um nerd mesmo, Teo”.
-hahahahaha. A risada pode ser ouvida por vários metros. O porteiro ria ao ouvir a pergunta de Teo sobre quem era aquela moça.
-Cara, você é esquisito hein? Não sacou quem ela é ainda? Ela mora no apartamento em cima do seu e não percebeu isso?
-Não fico muito em casa João.
-É verdade, desculpe, Teo. Bom você vai ter que descobrir. Nesses dias encontramos uma caixa de papelão no lixo, com vários pertences, que, é claro, só poderia ser daquela louca.
-Como assim? O que tinha dentro dela?
-Você vai precisar ver cara. Na verdade nós começamos abrir e não continuamos. Descobrimos algo sobre a moça. Você precisa ver.
-Onde está a caixa?
-Está na casinha de máquina do elevador. Pode subir lá. Tome a chave, preciso ficar na portaria.
Teo subiu o elevador e entrou na saleta. A caixa estava aberta. Dentro havia vários filmes pornográficos. Pegou os DVDs e na capa era a moça do apartamento de cima. Por isso ela era daquele jeito, pensou. Por isso sua mãe falou com ela daquela forma. Que tipo de gente é essa que vem morar naquele apartamento.
Teo levou um dos filmes para o apartamento devolvendo os demais para o porteiro. Instruiu-o para que ele queimasse todos os Dvds, pois, poderia expor as pessoas, sem motivo.
Chegando em casa, colocou o Dvd e percebeu que a moça gravava as suas transas naqueles Dvds. Talvez comercializasse. Talvez entregasse para o próprio cliente por um preço.
Resolveu subir e conversar com a moça.
Ela atendeu a campainha e o mandou entrar.
-Oi gato. E aí o que deseja? – Ele viu as câmeras instaladas no apartamento. Era uma maníaca como previra.
-O que faz com essas câmeras na parede?
-Você nem imagina?
Teo odiava perguntar e ter que ele mesmo responder. Mas ela fizera não sentir raiva naquele momento. Gostou de responder aquela pergunta.
-Imagino que goste de filmar seus momentos íntimos não é?
-Sim, como sabe?
-Estão todas viradas para a cama, disse apontando para as câmeras.
-Hum é verdade. Você é inteligente moço. – Ela fechou a porta com calma e charme. O perfume em seu cabelo era adocicado, contrastando com o ambiente acre. Teo sentiu-se envolvido com o ambiente e com a garota, mas, não deixou isso continuar.
-Preciso ir embora.
-Calma, vamos fazer um filme.
-Não, obrigado.
Teo saiu e desceu em seguida. Confirmou a história do porteiro. Afinal ele sabia mesmo. O porteiro sabia de tudo.
A moça do andar de cima mudou 5 meses depois e vários filmes haviam sido feitos para seus clientes. Inclusive Teo descobrira depois que o porteiro fez um e por não ter pagado estava no lixo como aqueles que ele tinha encontrado.
Ela foi embora. O apartamento era de aluguel e a garota foi mandada embora por conduta inadequada ao condomínio. Já estava acostumada.
Teo vivera algo. Era estranho, mas, a vida mostrou o que de mais assustador poderia mostrar a alguém: provara a ele que a sua suspeita era verdadeira a certo ponto. Descobriu que o serviço o ensinou um pouco, mas, precisava viver para descobrir o todo, a vida pulsava era a realidade escondida através dos papéis.
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Como tenho produzido textos focados na musicalidade como comunicação, proponho aqui apresentar e discutir a ideia de Platão acerca da importância da música na formação dos indivíduos, enquanto manipuladora de sentimentos e atitudes. Antes de iniciar, cabe ressaltar que para os Gregos a música significava a arte das Musas, tendo a harmonia e o ritmo acompanhados de palavras. Deste modo, a oralidade é parte fundamental da música que Platão se refere, pois, como veremos, o pensador apresenta o discurso como influenciador poderoso do comportamento humano. Tendo a obra “A República”[1] como referência, apresentarei a proposta da educação dos guardiões da cidade sugerida por Platão. Segundo o pensador, os guardiões seriam os melhores membros formados para exercer o papel de cidadão.
Através dos pensamentos de Sócrates, Platão parte do princípio de que os guardiões deveriam ter como base os exercícios de ginástica, mas, junto com o condicionamento físico, deveriam temperar o corpo através da música. O pensador alegava que a música possuía o poder de moldar a alma e, a alma, a capacidade de moldar o corpo. Entretanto, alertava que não eram todos os tipos de música que se podia permitir na República, pois, assim como existiam músicas que moldavam a alma de acordo com o correto, com a virtude, havia outras que a enganavam, temperando-a com base na mentira e engano.
O livro apresenta um diálogo que esclarece e expõe as formas de música que poderiam fazer parte da cidade modelo e, em especial, da formação dos guardiões. Para tanto, seriam necessárias apenas dois tipos que em seus discursos sugerissem atos de bravura, força e coragem ou, ainda, simples ações de honra e voluntariedade. Como assegura Platão:
Aquelas que forem capazes de imitar convenientemente a voz e as inflexões de um homem valente na guerra e em toda a ação violenta, ainda que seja malsucedido e caminhe para os ferimentos ou para a morte ou incorra em qualquer outra desgraça, e, em todas estas circunstâncias se defenda da sorte com ordem e com energia. E deixa-nos ainda outra para aquele que se encontra em atos pacíficos, não violentos, mas voluntários, que usa do rogo e da persuasão, ou por meio da prece aos deuses, ou pelo menos seus ensinamentos e assim procedido a seu gosto sem orgulho, se comporta com bom senso e moderação em todas estas circunstâncias, satisfeito com o que lhe sucede. Estas duas harmonias, a violenta e a voluntária, que imitarão admiravelmente as vozes dos homens bem e malsucedidos, sensatos e corajosos, essas, deixa-as ficar.
Segundo o pensador, era necessário expulsar os poetas que utilizavam a retórica[2] em suas poesias para tratar de assuntos dos quais não possuíam conhecimento empírico, pois essa atitude poderia mudar absolutamente todo o sentido real da história, enganando a população quanto aos verdadeiros valores e comportamentos honrosos, glorificando atos inadequados e de mau exemplo. Desta forma, a prática e a circulação de músicas impróprias gerariam desordem nos valores dos homens e nas práticas virtuosas, o que provocaria a desorganização social. Nas palavras de Platão:
Porque, segundo julgo, diríamos que os poetas e prosadores proferem os maiores erros acerca dos homens: que muitas pessoas injustas são felizes, e desgraçadas as justas, e que é vantajoso cometer injustiças, se não forem descobertas, que a justiça é um bem nos outros, mas nociva para o próprio. Em poesia e em prosa, há uma espécie que é toda de imitação, como tu dizes que é a tragédia e a comédia; outra, de narração pelo próprio poeta.
De acordo com o pensador, as obras trágicas significavam a destruição da inteligência dos ouvintes, daqueles que não tinham como antídoto o conhecimento da verdadeira natureza. Percebe-se que Platão ressaltava a importância da música na educação e no comportamento cotidiano dos indivíduos. A música, para ele, era capaz de persuadir e modelar os homens, tanto para o bem, quanto para o mal.
No entanto, o pensador se refere aos poetas e prosadores de forma cuidadosa. Ele não demonstra repúdio à figura dos autores, mas sim ao poder que estes tinham em persuadir e mudar as pessoas, por meio da utilização da farsa em suas letras. Deste modo, apresenta que nem todos os autores deveriam ser expulsos, podendo necessariamente permanecer aqueles que apresentavam o bom e moderado uso da retórica para colaborar na formação de virtuosos cidadãos, como já apresentado. “Da poesia só se pode e deve guardar as narrativas edificantes, sem artifícios rebuscados, sobre os efeitos dos verdadeiros heróis e que sejam indicadas para despertar o ardor dos guerreiros e inspirar-lhes a virtude”.
Platão ainda assegura que “se o poeta não se ocultasse em ocasião alguma, toda a sua narrativa seria sem imitação”. O que ele procura esclarecer é que os autores indignos narravam às tragédias como se tivessem participado dos eventos, enquanto que, na verdade, estavam apresentando textos fictícios, vazios e, assim, incorretos. No livro, deixa claro o seu desprezo pelos poetas que escreviam de modo a confundir o seu verdadeiro papel; quando estes ocultavam propositalmente suas narrativas e deixavam em evidência apenas o diálogo, o que induzia à imitação, como se fossem os verdadeiros heróis.
O bom uso dos ritmos também é analisado em “A República”. Para Platão, os indivíduos não deveriam procurar ouvir os ritmos variados, nem raízes de toda a espécie, mas sim observar quais eram os correspondentes a uma vida ordenada e corajosa, pois, como existem as más poesias e harmonias, também há os maus ritmos.
Em suma, Platão demonstra a importância da música na vida e no comportamento dos indivíduos. O bom uso da música, seguindo a ideia do pensador, possui o poder de alterar sentimentos e vontades. Em suas palavras, ela tem a capacidade de “abrandar os irascíveis e afastar os maus vícios, assim como atrair a coragem, as boas virtudes, a ordem à alma e, até mesmo, a justiça”.
[1] República – modelo de cidade proposto por Platão.
[2] [2] A retórica estava ligada a psicologia, como se o retor fosse capaz de conduzir atitudes e pensamentos, muitas vezes, incorretos.
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