e eu ainda estou
a caminho de casa…
“O futebol está no DNA do brasileiro”; “Ele toca bem desse jeito porque já tem o dom” – e tantas outras sandices que são propaladas mundo afora. Afinal de contas, de onde vem esse tal desse “dom mágico”? Esse “talento miraculoso” cuja origem, para muitos, deve permanecer desejavelmente inexplicada – porque a “teoria do dom divino” nos dispensa da obrigação de procurar a sua fonte – é um grande castelo de areia onde se apoiam as esperanças de sair da miséria (ou do anonimato) para o estrelato sem um mínimo de esforço e rumo a um futuro cheio de recompensas.
A Meritocracia é um sistema universal. Todo efeito alcançado é de qualidade análoga ao mérito gerado pela sua causa – evocando um princípio tratado por Allan Kardec, sempre à luz da razão. Ora, se fôssemos as tais “tábulas rasas”, de onde surge aquele “conhecimento inato” que faz com que uma criança reja uma orquestra ou apresente tendência para a Comunicação em detrimento da Engenharia?
Este tema, esta dúvida, ambos já foram exaustivamente tratados por pensadores e pesquisadores como o próprio Kardec, além de Leopoldo Machado, Carlos Imbassahy (notadamente nas suas respostas ao padreco Quevedo) e pelo próprio Carlos Bernardo Loureiro. Mas há quem ainda deposite a responsabilidade nos genes. Mas de que forma um conjunto de aminoácidos seria capaz de dotar um recém-nascido de um léxico ou das relações mais complexas da teoria musical? Rebatendo o argumento de que seria “do mesmo modo que a cor dos olhos ou o tipo de cabelo”, respondo que é necessário ter muita calma nessa hora: faculdades psíquicas são bem diferentes de características fenotípicas…
Até o momento – verdade seja dita -, ninguém conseguiu provar que é o cérebro que segrega o pensamento. Os estudos de Ernesto Bozzano sobre a ideoplastia, bem como os de Alexis Carrel sobre os efeitos anatômicos da prece denotam justamente o contrário: que as Academias optaram por agir como grandes instituições religiosas – cujo deus é o cérebro -, onde são propostas as mais mirabolantes teses explicativas para tudo, mas cuja validade (quando o assunto é explicar a natureza psíquica do Homem) é, geralmente, parca ou mesmo nula.
Para o pesquisador espírita Carlos Bernardo Loureiro, o cérebro é tão essencial para a vida humana quanto os pulmões, o coração, os rins ou mesmo os intestinos. A vida é um fenômeno ainda não dimensionado, que tem lugar em um sistema ainda incógnito – e a inteligência, antes de ser fruto disso tudo, parece, pelo contrário, servir-se deste complexo mecanismo para realizar as suas operações – denotando a ainda maior complexidade daquela.
Quem, até hoje, conseguiu provar que um bebê sente prazer sexual ao mamar no seio de sua mãe? Quem, até o momento, ofereceu uma teoria satisfatória para explicar os fenômenos de quase-morte pesquisados por Elizabeth Kübler-Ross, e que provam que o psiquismo pode atuar apartado do corpo físico? Das sandices de Freud ao teimoso ceticismo das Academias, o que fica claro é um ponto crucial: a Grande Verdade é que os senhores doutores ignoram a Causa Magna do psiquismo humano.
Voltemos então ao “dom”. Se, de acordo com Allan Kardec, todo efeito pressupõe uma causa, e se todo efeito inteligente pressupõe uma causa inteligente, como aquele talento foi se refugiar, serelepe, no psiquismo de um recém-nascido? Aquilo a que chamamos “dom” ou “aptidão inata” é, necessariamente, fruto de um esforço anterior, conservado pelo Espírito e do qual traz reminiscências. É patrimônio adquirido de um Ser que não descarta o que aprendeu em vidas pregressas, preservando seus conhecimentos para as próximas e pondo sobre os ombros de cada um a responsabilidade pelo seu próprio futuro.
É desta forma que se conserva o mérito, em lugar de se atribuir aos favores e humores de um deus que dá tudo ao meu vizinho, mas a mim, reserva a demência e a inépcia. Incongruências religiosas que dão espaço para pensamentos como o nazista e, antes mesmo deste, o inquisidor…
Porém, ao colocar o “dom” como uma espécie de “favor divino”, está aberto todo o espaço para a acomodação, a preguiça e, principalmente, a idéia de que toda empresa que levemos adiante é enfadonha. Se nasce com boa voz, canta sem se preocupar em estudar. Se joga bola, não precisa treinar.
Trago o belíssimo exemplo da Bruna Caram (sou fã, sim), que tem talento esculpido ao longo de anos de prática e estudo. Hoje, estuda balé, canto, teatro, sapateado, tudo para tirar o melhor de si. A quem interessar possa, leia a entrevista que a Bruna Caram concedeu à Teia Cultural e que ilustra a imagem de que, antes mesmo que o tronco comece a se fortalecer, uma grande árvore lança suas raízes em busca da água subterrânea: uma atividade obscura, paciente e trabalhosa, mas que garante vigor quase que inabalável àquela construção – que só tomba diante da violência assassina ou da ação dos parasitas. Fica o desejo para que o trabalho da moça sobreviva a ambos…
Uma nação socialmente vitoriosa dever-se-ia basear na Meritocracia como principal determinador do sucesso ou fracasso individual e coletivo. Quando tudo repousa nos “dons” e na “predestinação”, o sucesso passará a ser motivo de comemoração – quando, na verdade, é apenas a consequência natural de um trabalho bem planejado e construído por anos a fio para ser sólido e resistir ao tempo.
Enquanto se continuar o endeusamento dos “bezerros de ouro” do futebol, da música e do Carnaval, assassinatos e humilhações preservarão o seu lugar diante de um povo que aplaude quem os espolia.
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Como já havia dito em um de meus textos para a Teia, em diversos estudos que exploram a prática musical existe a preocupação em contrastar a música erudita da popular. Segundo a visão de Oliveira, erudito é o gênero musical “racionalizado, consciente, elaborado, concentrado quanto à técnica, conteúdo, estilo”, ao passo que o popular remete ao conhecimento “empírico, sem refinamento técnico, intuitivo, de fácil consumo, descompromissado com técnica, conteúdo e estilo. Essa definição de Oliveira parece ser não só simplista, mas um tanto preconceituosa e equivocada.
Para contrapor as ideias apresentadas, utilizarei as considerações de Luiz Tatit acerca do universo da música popular, em especial, do papel do músico de canções populares.
Em suas inúmeras publicações, Tatit se refere ao músico popular como “cancionista”. O autor apresenta que, realmente, não se sabe ao certo como o cancionista aprendeu a tocar, a compor e a cantar, porém, deixa claro que ele não é um simples indivíduo descompromissado, como apresenta Oliveira ao mencionar a produção da música popular como “descompromissada com técnica, conteúdo e estilo”.
Tatit parte da ideia de que o cancionista, apesar de não dominar a teoria musical, “sempre soube fazer tudo isso”. Para o autor, compor significa “dar contornos físicos e sensoriais a um conteúdo psíquico e incorpóreo. Pressupõe, portanto, uma técnica de conversão de ideias e emoções em substância fônica conduzida em forma de melodia”. Desta forma, compara o cancionista à figura de um “malabarista” pelo fato de o compositor possuir controle da atividade que permite equilibrar a melodia no texto e o texto na melodia. Tatit lembra que “cantar é uma gestualidade oral, ao mesmo tempo contínua, articulada, tensa e natural, que exige um permanente equilíbrio entre os elementos melódicos, linguísticos, os parâmetros musicais e a entonação coloquial”. Diante das colocações de Tatit, é possível avaliar que a definição de Oliveira distancia-se da verdadeira essência da música popular. E esse equívoco, quando se refere às comparações entre música erudita e popular, ou a própria classificação da segunda, é comum em diversos textos que procuram classificar as modalidades.
Em “A canção: eficácia e canto”, Tatit reforça que quem ouve uma canção popular, “ouve alguém dizendo alguma coisa de uma certa forma”. Deste modo, o que caracteriza a música popular é, justamente, o fato de o receptor reconhecer na música situações cotidianas de conversas. Essa característica, tão comum da cultura/comunicação popular, faz do discurso oral parte importante da música popular, diferente da música erudita que, segundo Tatit, “possui uma forte tendência no sentido de converter a voz em instrumento musical”.
Talvez seja esse um dos principais pontos que diferenciam a música erudita da popular. E, a partir dessa ideia, é possível inverter as colocações de Oliveira, já que a música erudita possui descompromisso com o conteúdo discursivo ao passo que a popular o valoriza[1].
Assim, termino minhas observações considerando que classificar ou comparar música erudita e popular é uma tarefa bastante complexa. Por outro lado, afirmo que não há como identificar se este ou aquele formato é mais correto ou importante. São apenas maneiras diferentes de se pensar e produzir a música, o que também envolve os gostos e os costumes de cada um.
[1] O fato da valorização oral não faz de toda música popular um discurso verbal. Não procuro generalizar, mas sim mostrar uma das principais divergências entre a música erudita e popular, já que, na maioria dos casos, encontramos definições preconceituosas que apontam a popular como produção desqualificada.
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REFERÊNCIAS:
TATIT, Luiz. A canção: eficácia e canto. São Paulo, SP: Atual, 1986.
TATIT, Luiz. O cancionista. São Paulo, SP: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.
OLIVEIRA, J. Zila de; OLIVEIRA, Marilena de. Prática de estruturas Musicais. São Paulo, SP: MCA do Brasil Editora Musical, 1977.
Imagem: Charge de Belmonte publicada em 25 de maio de 1946. Disponível em: http://almanaque.folha.uol.com.br/musicapopulardobrasil.htmTATO:
Contato:
@thifanipostali
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Em nossa infância, dizíamos coisas sem sentido, aparentemente sem nexo, ilusoriamente desprovidas de toda participação na causa das coisas futuras. Éramos ainda imberbes, e preservávamos a excelente teimosia de dedicar aos nossos pais todo sucesso em cada luta – seja como gratidão, seja como desafio. De qualquer forma, eram eles os nossos primeiros referenciais.
Aqueles primeiros momentos já eram como pendurar uma placa de “Procura-se”, em busca de uma identidade. E cada tentativa de negar a própria natureza com bases que não fossem sólidas, era como tapar o sol com uma peneira. Puro desvairio… Enquanto a vida se resumisse a se esconder de si mesmo, todo esforço se revelaria em vão. No fundo, porém, já sabíamos que o óbvio sempre se mostrou a nu: aquele sofrimento que nos foi oferecido não era, enfim, tão necessário…
Prometemos o que depois veríamos que, talvez, nunca teríamos podido cumprir; aprendemos que tudo aquilo que não foi, ficava guardado no pensamento como se tivesse acontecido do jeito que teríamos feito. Duetos cantados para sempre; fiapos que incomodam e provocam gemidos. Enfim, nos cadernos de poesia da adolescência, aprendemos, cada um, a ser tão somente o que nós somos – e aprendemos a escrever com mais cuidado.
Passamos da secura de não ter deleites ao bebê amamentado pela mãe. Entendemos o sentido da vida (alguns, na verdade), ignorando se ela se nos apresentava sem tempero: era nossa, e aquela satisfação de liberdade ninguém nos podia tirar. Foi esse o triz que faltava para mudar e sair do casulo: fazer café já era difícil e a miopia atrapalhava demais; tudo precisava ser passado a limpo, em busca de uma Utopia impossível que, ao ser vislumbrada, gritava em alto e bom tom: reflita…
Foi quando zeramos o nosso cronômetro da vida. Começamos pela vírgula, tivemos anti-amigos invisíveis, começamos a nos envolver em revoluções por uma vida menos ordinária. Passamos os dias de chuva na soleira, na expectativa de que, provocando uma chuva ácida, corroeríamos os nossos problemas. Àquela altura, era uma pena que não fôssemos bichos e estivéssemos obrigados, como Alices, a ver tudo dobrado através do espelho.
Tivemos “querências” de sermos nada tão comum. Sessenta vozes em nossas cabeças recém-entradas na vida adulta anunciavam que era o tempo de saber das coisas do Brasil. Mas ainda bem que o tempo passa e que a gente muda e idéia e de vida.
Acusamos que toda catástrofe pessoal acontece proporcionalmente em um país; soubemos, então, que não adianta tentar passar o cálice nem calar uma voz – ainda que imperfeita – com dez, cem ou mil provocações. Na fronteira da verdade, sentir a bela escrita nos dava ao menos alguma satisfação.
Vimos que era tudo parte de uma grande Alquimia. Fazíamos coisas que não gostaríamos de fazer – ou do jeito errado. Se entrávamos no mar, afogávamo-nos; se desabafávamos, tudo parecia mal-acabado: éramos poetas bêbados, amando e quase morrendo, passando por mudanças bruscas e rindo à toa. E no final, acabávamos percebendo que tanta gente tinha feito parte da nossa vida e que a recíproca não era tão verdadeira o quanto gostaríamos que fosse.
Soubéssemos de tantas coisas quanto as que agora de antemão sabemos, a passagem de uma etapa da vida à outra teria sido mais calma talvez; teríamos permanecido na trilha daquela estrada vizinha, logo ali ao lado – e que hoje vemos com tanta clareza. Teríamos tirado o sal da chuva para que se mantivesse salgado. Enfim, teríamos trabalhado para tornar mais fácil a chegada da novidade.
E só depois de tantos percalços é que, aparentemente contraditória, surge a beleza e a identidade da nossa própria história. Um brinde, por favor, é o que peço e ofereço em homenagem.
*prosa inspirada nos textos daqui.
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