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Da elite, nossa tropa de ignorantes

Postado por Armando Coló Neto em quarta-feira, 17 junho 20094 Comentários

tropaA arte tem sempre a função de despertar emoções. Ou pelo menos emoção. Ver um filme que, ao seu término, nada de novo se sente, é como escutar uma conversa furada ou ver uma foto sem graça. Na verdade, é muito mais que isso, pois depois de ter dedicado uma hora e meia frente à tela, nenhuma sensação nova brota, é, no mínimo frustrante. Claro que escolhemos, às vezes, ver um filme ou outro apenas para comer pipoca, chafurdar no sofá ou dar risada. Mas quando se quer ver um filme, um bom filme, nada mais natural que deixar que ele te leve, deixar que o autor da obra te carregue pelas quase duas horas de película para onde quer. O bom artista consegue fazer isso, seja qual for sua arte. Sebastião Salgado. Veja no link abaixo algumas das fotos e entenda sem palavra nenhuma o que isso quer dizer. Quando escutamos com atenção às músicas de Lenine, como “Ecos do ão”, “Candeeiro Encantado”, “Relampiano” ou qualquer do disco “Labiata”, não temos outra saída senão refletir, sentir algo, mesmo que seja certa tristeza ou decepção com nossa raça. Enfim, muito do que somos e pensamos hoje é fruto de construções através da arte, da música.

http://reconvexo.files.wordpress.com/2009/04/semterrasebastiosalgadops3.jpg
http://www.girafamania.com.br/montagem/fotografo-sebastiao-salgado.html

O cinema é um meio de perceber a vasta gama de realidades ao nosso redor. Temos, pessoalmente, a oportunidade de ver, sentir ou gostar da realidade que nossos próprios e únicos sentidos nos proporcionam. Livros e cinema têm a capacidade, senão o objetivo, de permitir a todos a experiência do mundo ou da realidade de outro alguém, cultura, comunidade. Ou apenas compartilhar a percepção e interpretação de determinada realidade por parte do autor/diretor. Por isso, sempre é válido conhecer o escritor e diretor de um filme, pois podemos dar créditos a uma obra de alguém que já descobrimos certa afinidade ou preferência. Por exemplo, quando vemos um filme de Lars von Trier (“Dançando no Escuro”, “O Grande Chefe”, “Dogvile”), já partimos do pressuposto que a obra vem grande, cheia de significados e repleta de olhares críticos e inteiramente engajados sobre determinada situação. Ao contrário, se vemos um filme de Steven Spielberg, sabemos que iremos encontrar excessivo patriotismo, exagerado senso de heroísmo, grandiloqüência de cenas e certamente finais resolvidos e felizes.

José Padilha, diretor de “Tropa de Elite”, pode ser reconhecido pela coragem e ousadia neste trabalho. “Tropa de Elite” tem o difícil, quase impossível, compromisso de se situar fora de partido, situar-se nem de um lado, nem de outro. Isso acontece não pela ausência de postura ou colocação ideológica do autor/diretor. Muito menos por medo de se colocar do lado perigoso da guerra, seja lá qual deles for. Mas sim por entender as duas realidades e intencionar, com o filme, apenas apresentar uma teia de verdades e fatos completamente interdependentes, sendo eles, a princípio, opostos, contrários. Refiro-me às contradições da criminalidade e corrupção dentro da polícia, do seu relacionamento simbiótico com o mundo do tráfico, e com a postura paternalista e, por que não, estadista das organizações do tráfico nas favelas cariocas. Também pelo fato de não ser intenção de José Padilha nos apresentar herói algum nesse jogo, nesse tabuleiro, onde mesmo as ONGs atuantes na comunidade e a própria Universidade se mostram não somente incapazes de intervir no problema, como distantes da discussão realmente pertinente ao assunto.

Por saber da complexidade da trama social e dos numerosos cantos problemáticos da vida em comunidade, Padilha não se põe a questionar o meio de trabalho, de vida, de um ou de outro grupo exposto no filme. Faz-nos perto de uma seqüência de situações que só não são absurdas por que acontecem com a maior naturalidade (não apenas no filme, mas na sociedade). Esse é o mérito do filme: uma pessoa perspicaz e corajosa que construiu uma obra cinematográfica que consegue apresentar a realidade nua e crua a todos, sem apontar tendência. E esse mérito rapidamente se tornou demérito quando pessoas incomodadas passaram a atacar o filme, ou pessoas nervosas a acatar uma mensagem (inexistente, em minha opinião) de que o método brutal de Capitão Nascimento e seu BOPE aplicavam contra o crime era eficiente e replicável. E críticos de cinema disseram que essa última reação mostra que o filme é perigoso, equivocado e mal-intencionado, pois incita nas mentes estranhas a raiva e a vontade de oprimir o crime com chumbo mais grosso. Como se fosse culpa do filme haver pessoas que assim pensam. Parece que o Padilha jogou um filé de carne suculento no meio de um bando de desesperados: todos atacaram a carne duma só vez e se estapeara, se morderam, se acabaram para comer o bife. E ele diz: é só um filé para alimentar. É só um filme para alimentar as almas com um pouco mais de verdade, de crueza e, acima de tudo, para distribuir e exercitar a capacidade de discernir, de lançar olhar crítico sobre uma situação. Lembrando que esse Capitão Nascimento, protagonista do filme interpretado pelo Wagner Moura, foi um camarada que existiu no policiamento do Rio de Janeiro e que esteve na mesma situação conturbada, doentia e, por vezes frágil, apresentada no filme.

Interessante foram as camisetas e adesivos que passaram a circular nas ruas com figuras e dizeres do BOPE. Está aí outra contribuição importante deste filme: demonstrar que muitas, mas muitas pessoas acreditam que o tráfico de drogas e os supostos criminosos envolvidos devem ser oprimidos e exterminados através da atuação brutal, violenta e incontestavelmente enlouquecida do comando de elite da policia carioca, o BOPE. Temos a oportunidade de perceber que nossa sociedade, cindida e esfacelada, tem muitos traços ditatoriais e imensa dificuldade para entender as raízes que engendram e mantém firmes as organizações do tráfico, as questões concernentes à própria existência desses grupos, os pontos cruciais relativos à ordem social proposta (imposta) pelo Estado que resultam, fatalmente, na manutenção da violência urbana. Enfim, pessoas passaram a usar camisetas do BOPE e a aplaudir, ou ainda a clamar por mais capitães Nascimento, fato que escandaliza a deficiência comportamental da nossa sociedade, em especial das classes alta e média, que, assustados com os monstros, com as mutações grupais que criaram, vêem apenas a solução da supressão e extermínio, sem considerar que o formato social que defendem nunca irá parar de criar a discrepância e a desigualdade, condição fundamental para a existência do crime.

Na tentativa quase esquizofrênica de cobrir um vazio situacional, um buraco, uma ausência de discernimento e capacidade de se apropriar dos seus papéis sociais, nossa classe alta e média se mostram intolerantes, ignorantes e, infelizmente, incapazes de resolver qualquer questão. Estamos ao Deus dará.

4 Comentários »

  • José Luiz C. Soares disse:

    Grande visão crítica, excelente texto.

  • Thífani Postali disse:

    É aquele doente pensamento de “alguns”:

    Para acabar com a criminaliade, deve-se acabar com os marginais, como um todo.

    E aos que não são criminosos:
    Melhor morrerem a ficar nessa vida miserável que levam. Pensamentos domintantes…

    Pesamentos que aliviam toda a culpa social.
    .
    Bela crítica, gostei.
    Mas também entendo que o filme, de alguma forma, desperta o desejo desses alucinados.
    Quando percebemos (público), estamos logo atrás do “Capitão Nascimento, participando da trama e torcendo para que ele não leve algum tiro. É complexo demais.
    .

  • Armando Coló Neto (author) disse:

    Realmente muito complexo. É verdade que nos sentimos, de repente, atrás do Capitão Nascimento, torcendo para que ele não leve tiro algum e vibrando com suas investidas. Com toda certeza, o filme despertou o desejo desses aluciandos. Mas, afinal, como dizemos, o filme serve para despertar emoções. Apenas acredito que o filme não criou esses desejos nos alucinados, mas sim os fez extrapolá-los. Enfim, conheçamos nossos monstros.

    Como você bem disse, “alguns” têm realmente a idéia de acabar com os marginais, todos. Todavia, isso me fez pensar sobre o significado da palavra “marginal”, o conceito de “marginalizado”. Encontrei, no site http://www.priberam.pt/ o seguinte: “colocado à margem da sociedade, …de importância secundária e escassa”. Dá o que pensar, não?

    É muito importante essa nossa discussão, Thifani. Obrigado!

  • Thífani disse:

    Oi Armando!!
    Se dá para pensar? Dá para pirar, isso sim, não? Estudo muito sobre as questões sociais, principalmente quando se trata de marginalizados – no sentido verdadeiro da palavra. Essa discussão é importantíssima e estou muito contente com as questões que você colocou. Eu é quem devo agradecer!
    Não estou sozinha, rs!
    Abraços
    .

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