Vaca, flores e a paineira
Há um vilarejo ali, onde sentimos um vento bom. Da varanda, de onde estamos, escutamos um bom som, um coração, um pássaro e uma boa canção. Para encantar a alma, deita no chão, sente a Terra pulsar e vê o horizonte. Acalma o espírito, lar de todas as mães, paraíso se faz lá. Flores nos quintais. Belas saias rodopiam, cheiro e harmonia. O sol, brilhante amarelado, acende, no peito, a vida. Traz a energia de longe, onde, nesse momento, não dista mais que um suspiro. Um longe que aqui se alcança e deslumbra. Um pequeno calor que aquece a alma, vibra e faz sorrir. Sensação de presença espessa e estável, como uma forte paineira que apenas olha e faz sombra. Do chão, a rápida umidade traz o feminino, a mãe Terra, a energia mestra. Desejo e vida, brotos e calmaria. Leve é o ar que entra e sai dos pulmões. Azul é a imagem que temos do céu. Contra o verde da mata gostosa, apenas nuvens sobrevoam. Aves também regozijam o palácio botânico. Peixes se esquivam de marolas e insetos assistem de perto. Pedras redondas são lisas de tempo e água, e têm cores coloridas. À margem de lá, um pé de mamão brisa as folhas e amadurece. Outro peixe chega e faz acrobacias. A mínima aranha andou sobre a película de água e não afundou. Vai chegar. E da casa avarandada, parece mais uma brincadeira de fazer a imaginação correr realidade. Onde o pensamento encontra o mundo, confundem-se, brincam mais, e se-dão por satisfeitos. No telhado de barro, o sol concentrou um calor. E no chão batido, um lagarto o cobiçou. Calor mesmo é estar vivo no lagarto, no chão batido e no riacho. Na terra da mata e na vaca. Viver é ser tudo ao mesmo tempo, e não ser ninguém sempre a tempo. De tão leve, vou levitar, se não fosse o barro em telhado da varanda, seria eu um novo sol, daqui uns tempos de subida. Uma pena parece querer cair no chão, mas sua inconstância de queda faz com que a grama continue assoprando acima. Assim vou eu parar no céu, se não fosse o telhado da varanda. Embaixo dele, quero ficar mais tempo, sentindo o cheiro do verde vivo que vem ao nariz e sentindo sintonia com as coisas que importam: o sol, o lagarto, a pedra redonda e o peixe, o rio e a madeira nova, a vaca, as flores e a paineira.




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