O Teatro Mágico: crítica
Após escrever o artigo abaixo, comecei a pensar sobre algumas coisas importantes na minha reação ao assistir ao DVD d’O Teatro Mágico.
E agora, já livre do, digamos, enfeitiçamento no qual me permiti cair, posso escrever com raciocínio mais claro e, como sempre (não é, Eliseu?), crítico.
Quero deixar claro que o que vou escrever aqui foi pensado antes do comentário de Eliseu que, não obstante, está coberto de razão.
Quem conhece a Dave Matthews Band (DMB) terá mais subsídios para entender o que coloco, mas o fato é: Fernando Anitelli é um sujeito bastante inteligente na condução da estratégia de marketing d’O Teatro Mágico. A outra parte do fato é que toda essa estratégia é 100% baseada na adotada há cerca de 18 anos pela banda norte-americana liderada por Dave Matthews. Primeiro, a qualidade artística do trabalho: as músicas são boas, sim, e a influência de Dave Matthews é clara – e, fique claro, isso não é crime, mas até virtude. Afinal, escolher boas influências musicais no Brasil anda cada vez mais complicado…
A forma de tornar o trabalho conhecido usando a internet como maior meio é o mesmo da DMB. E, por mais que o pessoal das gravadoras tente torcer o bico, a internet funciona. O modo de motivar o público a trabalhar pela divulgação da banda também é o mesmo, e é seguido à risca: a venda de artigos na lojinha do site, o fã-clube, a comunicação que leva os fãs a acreditarem que, divulgando aquele trabalhando, estarão levando uma dádiva a alguém – tudo isto já foi muito bem engendrado há 18 anos e o Sr. Fernando Anitelli pode até negar (não acredito que ele negue), mas não há revolução no caminho trilhado pela trupe de Osasco, mas apenas a excelente escolha de seguir uma estratégia inteligente e que deu certo “nos states”.
Mas nem tudo são flores, porque, infelizmente, Anitelli é brasileiro. E como 99% dos brasileiros, o trabalho que ele faz é contaminado pela “aura-maior” do Brasil: a falta de estímulo ao raciocínio claro e crítico. Muitos fãs podem me dizer que “Cidadão de Papelão” e outras músicas apresentam, sim, uma “crítica à sociedade moderna”. Mas, minha gente, isso aí só vai entender quem está fora da inércia nacional: há uma enorme distância entre a crítica-clichê e o verdadeiro raciocínio crítico.
No show d’O Teatro Mágico, tudo é sonho, tudo é meio irreal. E Anitelli excita ao máximo esse escape. O DVD que vi foi o “Entrada para Raros” e, no site, a trupe já diz que, no Segundo Ato, a proposta é fazer as pessoas transformarem o sonho em realidade. Espero que eles realmente consigam, porque os “raros” que temos até agora são (perdoem-me) alienados.
Os textos que Anitelli recita durante o show são até bons em algumas de suas partes, mas poderia ter parado em “hoje eu quero a fruta inteira”, não precisava continuar. Fernando Anitelli empobrece seus próprios textos em alguns momentos. “Eu falo errado, mas falo o que eu quiser” é uma apologia, no mínimo, questionável. E lá se vai, ralo abaixo, o incentivo que poderia ser no sentido da cultura, do estudo e da formação do Ser para se tornar capaz de entender mais do que aquilo que as experiências cotidianas lhe oferecem. “Zaluzejo” termina, em certo ponto, contrapondo a erudição com a verdade – e Ruy Barbosa teria calafrios ao ouvir esta canção. Mas vale como diversão…
As aliterações ainda são pobres também, e no final das contas, tudo fica pelo movimento de diversão (muito bom, por sinal) que o espetáculo oferece. No final das contas, todo mundo pinta a cara de palhaço e segue o ritmo de um Anitelli confuso nos seus textos, enfeitiçador de uma platéia carente, e com a competência de poucos para fazer um trabalho crescer de modo independente.
Não estou “detonando” o Fernando Anitelli, tampouco o TM: nenhum grupo atual conseguiu, com tanta competência, uma ascenção tão veloz em tão pouco tempo de modo independente, mas preciso deixar claro que, ao tentar fazer o que Dave Matthews fez, Anitelli vai até o meio do caminho e termina esbarrando na limitação de entendimento do brasileiro e na limitação inerente à sua própria formação enquanto tupiniquim: os fãs de Dave Matthews (entre os quais me incluo) possuem uma notável preservação de sua individualidade e crítica, e o próprio Dave, embora conflituoso, é sempre concreto em suas afirmações e mobilizações. Os fãs d’O Teatro Mágico, os “raros” (dos quais me excluo temporariamente), se diluem numa massa sem qualquer poder de transformação social.
Fica apenas, ainda, um sonho: o sonho proposto do Anitelli de que podemos mudar a partir de um mundo de sonhos, onde todos se mascaram, entregam sua individualidade para o sonho de um terceiro e, no final das contas, a verdade é que ninguém pode ser, na sociedade, o que é durante os shows.
Para ilustrar, desde o dia em que escrevi o artigo abaixo até hoje pela manhã, eu comecei a passar mal e fui, gradativamente, piorando: senti minha individualidade turva, meu poder de raciocínio estava embaçado e dores no corpo inteiro. Ao encarar o espetáculo de modo crítico, tudo cessou. Fico feliz por passar muito mal quando estou começando a me enquadrar na maioria: meu destino ainda é o de manter minha individualidade inteligentemente e acima de tudo. O Sr. Fernando Anitelli e sua trupe ainda precisarão apresentar muito mais do que isso para me fazer considerar O Teatro Mágico melhor do que o que eu mesmo sou capaz de fazer.
P.S.: mantenho os elogios ao impacto que o espetáculo é capaz de proporcionar, bem como o apelo: não pirateiem o trabalho do TM. Eles dão muito duro para realizar este projeto, e merecem receber a sua paga por tal trabalho.
===== ARTIGO ORIGINAL =====
Eu devo confessar e admitir que, por muito tempo, admirei O Teatro Mágico com muitas reservas, porque todo músico que se acha bom tem um certo receio em render homenagem a um trabalho que chega mais longe que o seu.
O fato é que o Anaiti tem se retirado do mercado “varejista” de shows, não porque nos falte a força para lutar pelo que acreditamos, mas porque acreditamos em coisas ainda maiores que a tortuosa expressão, em acordes, de tudo o que nos atormenta.
Não pude ir ao show d’O Teatro Mágico no último dia 23 de agosto de 2009. E não foi por falta de vontade. O fato é que Tarcila Duran, uma amiga, foi até lá e me trouxe um DVD, um simples disco prateado, cheio da energia que há muito procuro em tantos trabalhos e nenhum foi capaz de me entregar…
O show é lindo, a edição é maravilhosa e eu, fã confesso na intimidade, vi brotar dos meus olhos aquelas lágrimas que somente um artista diferenciado é capaz de fazer brotar.
Eu, aqui, na Teia Cultural, profiro estas palavras mais que devidas e muito bem conquistadas por Fernando Anitelli e TODA a sua trupe em 6 anos de trabalho corajoso, árduo, competente e, acima de tudo, cativante: reconheço o trabalho fantástico deste rapaz que foi capaz de enfeitiçar todas as pessoas que escutam as suas músicas.
Ninguém pode, de hoje em diante, passar indiferente pelo trabalho d’O Teatro Mágico. Ainda bem. Hoje, eu tenho orgulho de dizer que sou, também eu, Marcelo Rios, um raro.
P.S.: Em tempo, a proposta era eu fazer uma cópia do DVD para mim, mas não tive coragem… Já fiz o pedido do meu no site do Teatro Mágico. Por favor, não pirateiem quem trabalha direito!




Já vi um Marcelo mais iconoclasta….
Este que escreveu aqui está reacionário demais com tudo.
Sobre o Teatro Mágico não tenho muito o que falar (poderia dizer que é uma merda) mas nunca me deu vontade de conhecer e vou sendo feliz assim…
Nadar contra a corrente é sempre mais interessante pra valorizar os momentos em que pegamos a maré a favor…
Abração Zé!
A mudança de tom estre os textos é assustadora. De qualquer forma, vamos aos fatos. O seu comentário menciona uma apologia: ““Eu falo errado, mas falo o que eu quiser” é uma apologia, no mínimo, questionável”. Segundo o Houaiss, apologia é uma defesa, um enaltecimento de algo. No seu artigo ficou faltando esse “algo”; afinal de contas a frase do Anitelli é uma apologia de quê? Do erro, deduzo. Quem gosta do erro é o Coló Neto, neste sentido talvez ele concorde com a frase do líder do Teatro Mágico.
Além disso, a analogia constante entre o trabalho do Teatro Mágico e o Dave Matthews é meio suspeita. A estratégia do TM vai um pouco além, envolve questões de financiamento, licenciamento e um uso da internet que não era sequer possível tantos anos atrás. Além disso eu nunca soube de um CD do Dave Matthews que pudesse ser baixado gratuitamente.
Quanto a marketing, merchandising, nisso todos os produtos se parecem. Até o Itaú vende camisetinha pra quem quer comprar.
Quanto ao poder de transformação social, não creio que toda arte se preste à “transformações”. Há arte puramente contemplativa, há arte engajada e há arte burra. De propósito.
Mas o triste mesmo foi atribuir uma “aura nacional” à falta de clareza de raciocínio. Tem que ser corajoso pra dizer isso num país de Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Sérgio e Chico Buarque.
Olá, Fernando!
Sim, a mudança de tom é assustadora. Mas, indo aos fatos, a frase do Anitelli é uma apologia não ao erro, mas à idéia de que o erro é perdoável diante das intenções. O Coló Neto talvez goste do erro e pode até concordar com a frase do Anitelli, mas nem por isso deixo de acreditar que esta “defesa da ignorância” ainda seja nefasta, diante de uma platéia fanática e que responde a todos os comandos do Anitelli durante o show.
Não enxergo a estratégia do TM indo além da DMB. O grupo norte-americano optou pelo modelo (inteligente) da independência quando o futuro das gravadoras ainda era incerto. O TM passou por esta decisão há pouco tempo, optando de forma acertada pelo modelo independente em tempos em que o modelo antigo já se mostra claramente em declínio.
O financiamento principal de ambos é o mesmo: shows e loja. Quanto ao uso feito da internet, o TM a usa como o faz a DMB hoje. Vale lembrar que já muito antes do TM nascer, os shows da DMB são gravados pela própria banda e estas gravações, distribuídas gratuitamente para todo o mundo. A ferramenta de fidelização é a mesma, bem como a mecânica. Vale o http://www.dmbrasil.net – eu mesmo pego as gravações da DMB lá, e o investimento feito pela banda, neste caso, é muito maior e a música é distribuída livremente pela internet.
Em relação ao que cada um espera da arte, é particular. Sempre espero que a arte transforme a realidade social, e, em meu conceitos, toda arte deve se prestar, sim, a “transformações”. Não entendo o conceito de “arte burra”.
Bom, o ponto alto do comentário foi a atribuição de uma “aura nacional” à falta de clareza de raciocínio. A nossa história a comprova. Sempre optamos pelo pior: a colonização portuguesa em lugar da holandesa; a quebra das influências inglesas e francesas, na Semana de Arte Moderna, abrindo espaço para a (pobre) cultura norte-americana; seguir a igreja católica e não optar por Ruy Barbosa como presidente; todas as nossas outras escolhas políticas. O brasileiro não é um povo afeito ao raciocínio, e tenho coragem e consciência para dizer isso num país de Sarney, Xuxa, Eliana, Mulher-Melancia, Zina, Sabrina Sato, Gilberto Barros, Faustão, Glória Perez, Walcir Carrasco, Henri Castelli, Divaldo Franco, Padre Fábio, Irmã Dulce, João Henrique Carneiro, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Vanusa…
Darcy Ribeiro, Gilberto Freyre, Sérgio e Chico Buarque são exceções, e não a regra.
Cada um escolhe seus ídolos.
Ops, desculpa Marcelo, encerrei sem terminar.
Então, eu não disse que todo mundo deve esperar isso ou aquilo da manifestação artística. Disse que a arte, em si, antes de qualquer público, pode ter finalidades distintas. Inclusive nenhuma.
Quanto à tal aura de burrice acredito que você devesse tomar mais cuidado. Todos os fatos que você citou dependem de uma análise histórica mais cuidadosa que eu não faria neste espaço. Além disso é meio perigoso imaginar que determinado povo seja intrinsecamente “burro”. Porque o caminho lógico que constrói esta frase permite o raciocínio de que há povos naturalmente inteligentes (nem que seja pra servir de parâmetro) e portanto, alguns povos são “melhores” que os outros. Esse é O MESMO raciocínio que justificou o determinismo, raiz de políticas como o nazismo, por ex.
E isso é apenas uma questão de lógica.
Ou ainda, só pra usar um dos seus argumentos, não há garantias de que a colonização holandesa conduzisse a um caminho diferente, visto que o que importava naquele momento não era qual metrópole, mas qual modelo de colonização.
Até mesmo os Estados Unidos, ainda que colonizados pela Inglaterra produziu resultados semelhantes nos territórios em que o mesmo modelo que o nosso foi empregado.
Resumindo, não é bem assim, nunca é bem assim.
Abração
que azedume, hein, marcelo?
então você trocou a sua percepção inicial, totalmente emotiva e sincera, pela posterior, crítica, pseudo-racional, cinza, amarga e mal-humorada?
deixou de pensar com o corpo e usou mal a cabeça. trocou as lágrimas pela peçonha.
tentou preservar sua preciosa individualidade e caiu no mesmo buraco junto com tantos outros que adotam esse tipo de comportamento. foi arrogante, ranzinza e perdeu uma boa oportunidade de prolongar o êxtase inicial que o dvd despertou em você.
que pena…
Após ler o texto de Marcelo e todos os comentários que se seguiram, posso afirmar poucas coisas, mas das quais tenho certeza. Não gosto d’O Teatro Mágico porque, ao meu ver, é uma triste tentativa de combinar o estilo “Cordel do Fogo Encantado” com letras POPs e até pobres em poesia. Sem falar em mais um monte de malabares e trapezistas que parecem tentar desviar a atenção do público da “arte” apresentada.
Não vou fazer comparações a DMB porque não tenho condições para tal. No entanto, entendi perfeitamente o que Marcelo quis dizer sobre o resumido “falo como eu quiser”. Inclusive, penso que isso se contrapõe a um trabalho artístico sério, principalmente nos dias de hoje, em que se fala tanto em trabalhar a educação pela arte. Na minha opinião, artista que se preze tem plena noção de seu papel na sociedade como incentivador de seu público; cabe a ele escolher se quer participar de uma melhora ou piora deste – muitas vezes, a última segue a linha do “panis et circensis” (isso é História), ou seja, quanto mais ignorante, melhor.
Eu compartilho da opinião de Marcelo: a massa não pensa. E aqui ninguém está colocando a culpa na própria massa. É apenas uma constatação. A massa não está, necessariamente, ligada a determinada classe econômica ou social, mas sim à Educação (e sua subordinação ao Estado) e ao interesse do indivíduo e o que o faz pulsar.
Para fechar e concluir o meu comentário, sou mais o azedume sincero e parcial de quem escreve do que uma falsa opinião para agradar leitores. Quem deve se preocupar em agradar o público é o artista, não o colunista ao expressar o que pensa. Quem é fã de TM vai odiar a sinceridade individual de Marcelo Rios. Para aqueles em que o TM não faz cócegas, é um motivo a mais para conhecer e refletir sobre a trupe. Para quem não gosta, assim como eu, basta compartilhar da opinião. Se cada um é livre para escolher seus ídolos, também o é para expressar sua opinião sobre todo e qualquer assunto.
Hélio, resposta no post http://www.teiacultural.com.br/v4/?p=2508
; ]
“O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem”, já dizia Nelson Rodrigues.
A mediocridade que assola a indústria fonográfica e seu público, seja essa a indústria do mainstream ou a indústria alternativa assola também aqueles que vivem no paraíso do primeiro mundo. A não ser que Beyoncé pode ser enquadrada na categoria de música com “raciocínio claro e crítico”.
As músicas do TM não esbarram na limitação do entendimento tupiniquim, esbarram na limitação do próprio compositor, com sua parca formação musical e cultural. E aqui me refiro à nossa cultura, e não à essa pretensa cultura superior estrangeira.
Viva a cultura popular tupiniquim.
Viva a todo brasileiro que não cospe na própria imagem.
Aproveitando para corrigir no comentário acima: “A não ser que Beyoncé possa ser enquadrada na categoria…” e para esclarecer que, quando digo que o cantor tem uma parca formação cultural brasileira, me refiro ao desconhecimento dele da riqueza da nossa cultura, e não que a cultura é pobre.
Não falarei sobre o mérito da crítica, mas à crítica em si, como artista que sou, na linguagem mais que indireta. Acho que o Marcelo tá mais pra cientista… Faz algumas confusões,ou melhor, acaba limitando o conceito de arte um pouco, impossível não limitar. Na verdade, está com o pensamento um pouco velho. Não se quantifica a arte. Não se quantifica a cultura. Como melhor ou pior? Como individualidade? Arte precisa de liberdade, de caos. Como alguém pode ser livre estando preso a algum tipo de individualidade? neolivre? Pode ser. Bom, mas não é a sua obra em questão. Nem nenhuma outra. Arte é coletiva, meu caro. É contemplação, sentimento, ação. Não é análise. Quem precisa de individualidade,nesses termos, são críticos, que, sejamos francos, têm pouca serventia. A maioria deles são ressentidos por alguma coisa. Será? Percebo que o TM não bate com certos padrões, mas sua idéia é um pouco velha, Marcelo. Ruy Barbosa, como assim, do que está falando? Insisto,não quero analisar a qualidade da música. Prefiro seu relato mais apaixonado, o primeiro, o do coração. Alienação? Alienação?!!
Um toque: Olhe pela janela, sinta o vento, perceba a variação do tom da iluminação solar de cada dia. Alguma coisa acontece.
Obrigado pelo espaço.
Cássio e Brasileira,
Resposta no post http://www.teiacultural.com.br/v4/?p=2969
Tua postura me pareceu bem Vitoriana.
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