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O Teatro Mágico: crítica (pt. 2)

Postado por Marcelo Rios em domingo, 20 setembro 200910 Comentários
Fernando Anitelli

Fernando Anitelli

Meus admiradores, Fernando Leme e Hélio Dias, foram, cada um a seu jeito, motivadores de profundas reflexões. Mas não me refiro a uma revisão de minhas opiniões sobre o Teatro Mágico, Fernando Anitelli, etc. – ver o meu artigo anterior, “O Teatro Mágico: crítica”.

Fui bastante criticado pelo Fernando Leme ao criticar a apologia que o Fernando Anitelli faz ao erro irresponsável. O fato é que o líder do TM (Teatro Mágico) pisou feio na bola. O erro produzido durante a tentativa do acerto é natural (e jamais louvável, mas pelo menos útil), mas “eu falo errado, mas falo o que eu quiser” é postura de gente ignorante e que gosta de ser assim. Perdõem-me os supostos “raros” (fãs do TM) mas, minha gente, é um fato: o Anitelli disse que vocês não precisam se fazer claros nas suas palavras. Fico imaginando as leis que um “raro” venha a redigir…

O Fernando Leme também disse não crer que toda arte se preste a “transformações” – e já que meu amigo gosta dos dicionários, trago uma definição. Mas trago a do Caldas Aulete, que talvez não lhe seja caro, e que define a arte como “atividade criadora do espírito humano”. Bem, entendo o ato de criar como algo que modifica o conjunto das coisas que já existiam, transformando-o. Logo, meu caro, a arte, em sua essência, já modfica o meio no qual é inserida. Não seria uma opção, mas uma consequência invitável.

Mas vamos ao meu ponto deliciosamente preferido: eu atribuo, sim, uma “aura nacional” à falta de clareza de raciocínio. E a minha maior prova, aqui, é o comentário dos meus dois amigos ao meu artigo anterior. Vejamos:

O Fernando Leme não domina a gramática. Quem faz apologia, fá-la a algo, e não de algo. Neste trecho, você conseguiu me dizer o que queria – pois sou bom entendedor e sua meia-palavra me bastou. Mas seu raciocínio, diante da correção da língua, não ficou claro. E – que fique bem claro – o pobre Jô Soares já nos mostrou nos exemplos de respostas colhidas nos exames do ENEM que este é um problema mais generalizado do que se possa imaginar.

No seu segundo comentário, fiquei sabendo que o Fernando Leme acha que o determinismo é algo ruim. Bom, saiba que o determinismo não é uma doutrina política, mas algo que criamos a partir de nossos atos mais simples: se você bebe além da conta, está criando um determinismo, pois ficará alcoolizado. Se evita a bebida a qualquer custo, cria outro: não ficará bêbado. O que fundamentou o nazismo, foi, sim, um determinismo – aquele sugerido por Darwin, em “A Evolução das Espécies” (que era o livro de cabeceira de Hitler), mas não vamos confundir as coisas. Se você sugere que, dizendo que o brasileiro é burro, eu sou a favor do extermínio destes curiosos espécimes, parece que você está sendo determinista ao extremo…

Enfim, Fernando, nunca é bem assim.

Mas vamos aos comentários do amigo Hélio Dias. Segundo ele, eu sou azedo. Para começar, tamarindo é azedo e muita gente gosta. Logo, não vou considerar o azedo algo ruim – mas, sim, algo que apenas os fortes conseguem suportar. Eu sei que estou usando um caminho lógico conveniente, mas preciso me destacar da maioria – burra – deste meu brasilzão de meu deus.

O Hélio Dias se sentiu magoado por eu trocado a minha percepção inicial, “totalmente emotiva e sincera, pela posterior, crítica, pseudo-racional, cinza, amarga e mal-humorada”. Vou ignorar a subliminar associação entre “emotiva” e sincera”, que até poderia ser levada em conta, se não estivesse sendo contraposta à associação entre “crítica”, “pseudo-racional”, “cinza”, “amarga” e “mal-humorada”. Vejamos:

Hélio, então você quer me dizer que a crítica é algo ruim? O elogio, ainda assim, seria uma crítica. O ato de criticar nada mais é do que emitir um parecer. E por quais motivos os meus argumentos são “pseudo-racionais”? Mas o que eu mais gostei vem agora. Vamos lá.

“Cinza” é uma cor, e nada mais. Aliás, eu adoro a cor cinza. “Amargo” é um sabor, e que faz parte da natureza. A rúcula é amarga e é excelente para a nossa saúde. O pimentão, também. Por que só o doce e o salgado deveriam nos fazer bem? Por que adoramos achar que as nossas emoções são fantásticas, quando elas nos conduzem, quase sempre, ao atos mais bestiais? Crimes passionais, erros de julgamento, relações extraconjugais, vingança. Estas, meus amigos, são as nossas emoções. “E o amor, seu miserável? E a misericórida? E a compaixão, seu coração-de-pedra?”, alguns gritariam aos meus ouvidos. Por “amor a deus”, muita gente matou na Idade Média. Por compaixão, alguns presos recebem o indulto de Dia dos Pais e matam, por exemplo. E, por favor, tenham misericórdia: como já observava Carlos Bernardo Loureiro, “seu deus perdoar, estará criando o instituto de impunidade”. Conheço os meus sentimentos mais autênticos, que são os que não prestam. Quanto aos que tento conhecer, abstenho-me.

Hélio diz que eu troquei as lágrimas pela peçonha. Bem, sem a peçonha, não teríamos a saúde dos antídotos. Os ignorantes morrem se entram em contato com o veneno das serpentes (símbolo da prudência, no discurso de Jesus – “sede mansos como as pombas, e prudentes como as serpentes”) e dependem dos que são capazes de convertê-la em algo bom. Portanto, se tens medo da minha peçonha, Hélio, imagino que sequer saiba que ela é extremamente valiosa.

Para finalizar, o Hélio acha que eu perdi uma boa oportunidade de prolongar o êxtase inicial que o DVD d’O Teatro Mágico provocou em mim. E aí está o retrato perfeito do povo brasileiro: tentando prolongar eternamente o êxtase dos seus frágeis e trêmulos sentidos, para que, inebriados, não precisem raciocinar e correr o risco de, raciocinando, se tornar os animais peçonhentos pelos quais nutrem tanto ódio: os pensadores.

Não por acaso, Sócrates e Jesus foram assassinados justamente por pensar acima da média. Não por acaso, Nietsche e Kafka foram chamados de loucos: é um outro modo de matar os pensadores. Não por acaso o Brasil é um país de gente burra, que acha que pensar mata ou enlouquece. Para estes, é melhor continuar seguindo cegamente Fernando Anitelli e sua trupe…

P.S.: Muito agradecido a Lívia Gusmão por defender neste portal o meu direito de pensar.

10 Comentários »

  • Fernando Leme disse:

    Marcelo, antes de tudo preciso te dizer que as discussões são sempre sobre idéias, conceitos; nunca sobre as pessoas. Portanto não acredito que seja necessário que você tente adivinhar quem eu sou ou de que coisas gosto a partir do que escrevo. É o mesmo respeito que, sem te conhecer, tenho com você.
    Vamos por partes:
    1. Você não entendeu minha crítica sobre o tal do erro. Principalmente porque eu quis dizer exatamente o mesmo que você. Acho mesmo que erros, uma vez cometidos, têm que ser assumidos e consertados. Critiquei a sua frase que não indicava o complemento nominal da apologia a que se referia.
    2. Fico lisonjeado ao perceber que você pensou que eu dominava a gramática. E pode reparar que isso partiu de você mesmo, porque eu nunca disse isso. Mas obrigado pelo elogio. De qualquer forma, você tem razão quanto ao complemento nominal do substantivo em questão; viu só, aprendi mais uma!
    3. Quanto ao Caldas Aulete, conheço e aprecio o dicionário. Mas cuidado com a grafia do nome hein? Dá uma olhada aqui (http://www.auletedigital.com.br/).
    4. Sobre a arte. O seu entendimento sobre o que seja “criação” não interfere sobre o conceito puro. Se você acha que criar é isto ou aquilo, sorte a sua. O Houaiss (e tome dicionário) tem 25 acepções para a palavra e ainda que a reduzíssemos para apenas o processo criativo seria empobrecedor achar que tudo o que se faz tem que ter, obrigatoriamente, uma finalidade.
    5. E finalmente, sobre o determinismo. Não disse que se tratava de uma política, se você não entendeu, por favor, leia de novo. Disse que tratava-se da raiz (origem, fundamento) de políticas como o nazismo. E como é um conceito predominantemente filosófico, ele não tem apenas esta acepção que você entende, como as relações de causalidade. O determinismo também é o “princípio segundo o qual tudo no universo, até mesmo a vontade humana, está submetido a leis necessárias e imutáveis, de tal forma que o comportamento humano está totalmente predeterminado pela natureza, e o sentimento de liberdade não passa de uma ilusão subjetiva”. Um raciocínio como este justifica a sua frase “O brasileiro é burro”, que eu não teria, nunca, coragem de proferir.
    Mas acho mesmo que você precisa se acalmar, e ambos precisamos de uma cerveja numa mesa para filosofar simultaneamente.

  • Marcelo Rios (author) disse:

    Opa, Fernandão!

    1. Bom, deixa eu lhe dizer algo hipotético: “João falou que ’sorvete de chocolate é marrom, mas mesmo assim eu gosto’. Mas ele gosta de sorvete de que sabor? De chocolate, eu deduzo. Quem gosta de sorvete de chocolate é o Pedrinho, e talvez, então, ele concorde com o João”. Agora me diga: eu, Marcelo Rios, gosto de sorvete de chocolate?

    Se você conseguir me dizer se gosto ou não de sorvete de chocolate com base no que coloquei no parágrafo acima, eu juro que vou admitir que não entendi mesmo o que você quis dizer sobre o erro…

    2. Eu não presumi que você domina a gramática, mas apenas constatei um fato. Nunca é bem assim, Fernando… ;-]

    3. Obrigado pela correção do nome. De fato, é Caldas Aulete, com um”t” só.

    4. Se você acha que a arte é isso ou aquilo, sorte a sua. Só não consigo admitir a possibilidade de alguém fazer algo sem nenhuma finalidade (ou seja, sem ter almejado objetivar qualquer resultado). Fazer as coisas para nada é como aqueles zumbis de filmes B fazem. E ser zumbi não faz parte da minha concepção de “expressão da personalidade”.

    5. Sobre o determinismo. Não vou aprofundar muito sobre o pensamento de Gustave Geley e de Manuel S. Porteiro sobre causalidade e finalidade, nem sobre o de Alfred Russel Wallace e Carlos Imbassahy sobre a evolução, porque sei que vai ser demais. Mas apenas para dizer que percebi que nossos entendimentos acerca do determinismo são bastante divergentes e não caberá discutí-los em “argumentações de comentários”.

    Por fim, meu caro, peço desculpas pela desfeita, mas terei de recusar ao seu convite para tomar uma cerveja. Primeiro, porque não costumo beber, tampouco ingerir algo que me tire a lucidez para, então, tentar chegar a um consenso sobre qualquer tema que exija clareza de pensamento. A que tipo de consenso dois bêbados chegariam? Isso é nojento. Depois, Fernando, é que, francamente, não acredito que uma mesa com cervejas seja o melhor ambiente para duas pessoas discutirem idéias. O máximo que me permito fazer é sentar à mesa de restaurantes para apreciar uma boa música com os meus pares… E ambientes barulhentos não são propícios ao bom entendimento de argumentações.

    Sinto saudade de Ruy Barbosa, em “O Para e O Concílio”.

  • Thífani Postali disse:

    Gente, pra quê tanta discussão se a arte é isso ou aquilo? A arte não tem deveres, muito menos, o próprio artista que, ao manipular códigos, mexe com signos que falam por si só. Isso significa que nem o próprio artista domina a sua arte por completo. Assim sendo, o receptor, muito menos domina! Esse decodifica signos que podem significar outra coisa que não a que o artista pensou em fazer. A arte só é arte com o ato da interpretação, e a interpretação é subjetiva demais, porque ela envolve o repertório particular de cada um.
    Outro fato é que, dicionários nem sempre se aprofundam nos significados. A arte é subjetiva e segundo os filósofos já mencionados aqui, está ligada ao belo e o belo é inalcançável, de acordo com o seu verdadeiro sentido [filosófico].
    E, segundo os extremistas, se a arte é pensada e calculada antes de se formar, ela já deixou de ser arte, rs. Enfim. Se pensarmos que ela não é absoluta e que o seu criador, não é capaz de dominar todos os sentidos que ela causará, penso que discutir isso se torna impertinente. É uma opinião pessoal, acordada com o meu repertório, portanto, não estou me referindo a nenhum colega.
    Acho perigoso também menosprezar a “massa brasileira” visto que estamos todos inseridos nela. Se há discussão sobre o tema, significa que a massa não é tão manipulável assim. Temo em cair na mesmice em apenas acusar a massa, como se nós fossemos superiores aos demais, pelo simples fato de discutirmos esse tema.
    Não conheço TM e nenhum outro grupo mencionado nas discussões. Também entendo que é um direito meu não os conhecer, já que o que eles fazem não despertam a minha curiosidade – como pessoa livre de escolhas.
    O único ponto que me incomoda nessa discussão, é a questão em querer impor o que a arte é. Tenho certeza de apenas uma coisa: Ela é subjetiva a qualquer um e, querer que ela tenha que sempre significar algo a todos, é ideológico demais. Ela pode significar algo bom ou ruim, pode provocar sentimentos de ódio e de liberdade, mas no final, o que importa, é se ela provocou, e se isso ocorreu, é porque, para aquela pessoa, é arte. A arte só se completa com a reação do receptor. Pra mim, TM não é arte, pq eu o desconheço. Mas pode ser considerado arte para um monte de fãs que se sensibilizam perante o grupo.
    Para aprofundar as questões que envolvem a arte, não nos prendamos às definições simplistas dos dicionários. A arte é para ser pensada (sentida) não mecanicamente, ela não tem receita!
    Sobre os nossos colegas, alguns eu conheço, outros não. Entendo o ponto de vista de todos e acho que discutir faz parte da educação informal. Este site é uma fonte de educação, e nosso acesso aqui, mostra que a massa também é individualista nas questões que envolvem os interesses pessoais de cada um.
    Parabéns a Teia, a Lívia que dá a oportunidade para diferentes idéias se encontrarem. O importante é que haja sempre respeito sobre as idéias, erros, costumes e conteúdo de cada um. Afinal, graças a deus, não somos todos iguais!

    Quem quiser pensar a arte, esse é um bom livro:
    Janet Wollf. A produção social da arte. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.
    .

  • Fernando Leme disse:

    Bicho, desencana.

  • Marcelo Rios (author) disse:

    Thífani,

    Não vou entrar nos méritos sobre o que é ou não é arte. Definitivamente, esta é uma questão pessoal (e nem chega a ser o quinto objetivo do meu artigo). Minha intenção é, simplesmente, dizer – e quero aqui deixar claro: na minha opinião, O Teatro Mágico é muito bom enquanto entretenimento, mas não é digno dessa aura “cult” e mágica com a qual os fãs o revestem.

    Como Lívia Gusmão bem lembrou, a poesia do Anitelli é de 5ª categoria. A meu ver, beira a verborragia ineficaz de quem acha que tem muito a dizer. Aliterações pobres e por aí vamos. A intenção do meu primeiro artigo era apenas testemunhar que é possível ficar inebriado e, ainda assim, sair deste estado e voltar a si mesmo.

    Enfim, agradeço a apreciação.
    =]

    Quanto ao Fernando Leme, fiquei decepcionado. Sei que sou bélico ao extremo na defesa das minhas idéias – e isso não deve ser confundido com “querer que todo mundo pense igual a mim”. Mas só acho que você poderia ter se defendido mais um pouco. De qualquer forma, que fique bem claro: quando escrevo meus artigos, exponho meus pontos de vista. Se alguém discordar, por favor, exponha – só não queira me catequizar, ok?

  • Fernando Leme disse:

    Você tem por hábito não entender… mas como a discussão perdeu o mérito, desisto dela.

  • Fernando Leme disse:

    Marcelo, te mandei um email no contato.marcelorios… Esse endereço é válido?

  • Thífani disse:

    Olá Marcelo, tudo bem?
    Entendi perfeitamente o que discorreu em seu texto e achei pertinente para o site. Aliás, ele me permitiu pensar as questões que envolvem o Teatro Mágico, coisa que eu nunca havia feito antes, rs – foi ótimo. Sobre “entrar nos méritos sobre o que é ou não arte”, foi exatamente o que eu quis dizer no comentário acima, é bobeira e “não é a questão do seu texto”. Mas, não podemos negar que foi um ponto forte das discussões, portanto, eu me encaixo nessa parte! Procurei somar as idéias pensando a partir dos comentários.
    Enfim, acho importante que haja discussão e friso que, se o seu texto foi digno de toda essa repercussão, é porque ele surtiu efeito, certo?
    Parabéns! É muito difícil “arrancar” comentários dos leitores (eu faço parte deles).
    Bom, é isso.
    Abraços.

  • Evelyn disse:

    Vc por acaso já ouviu falar de uma coisa chamda Lingüística?
    Sai do seu mundo de fantasia. Ninguém domina o “português padrão”!

  • Fernando Leme disse:

    Em 21 de setembro eu disse que “ainda que reduzíssemos (a arte) para apenas o processo criativo seria empobrecedor achar que tudo o que se faz tem que ter, obrigatoriamente, uma finalidade.
    Me senti bem acompanhado hoje, http://www.youtube.com/watch?v=anFxDsg20KE .

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