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(R)ato Médico aprovado na Câmara

Postado por Marcelo Rios em quinta-feira, 5 novembro 20091 Comentário
Médico compromissado

Médico compromissado

Antes de iniciar, quero ressaltar o valor dos comentários ao meu último post, sobre o livro “Caim”, de José Saramago (por sinal, ganhei um de presente e assim que terminar de ler, volto a falar dele por aqui). O Fernando Leme compensou o meu esquecimento ao citar a canalhice do Governo Brasileiro ter assinado um acordo com os maiores inimigos do bom-senso, da razão e do espírito livre – a seita Católica, que se diz “Igreja” – que devolve privilégios àquele bando de pedófilos ladrões e sanguinários nesta repúbliqueta dita laica. A Thífani se manifestou; Patrícia ressaltou as mentiras; e o Ernesto, também muito justamente, notou que nos permitimos chegar neste ponto em que estamos hoje ao aceitar a dominação religiosa.

Chegar a que ponto? Este, do Ato Médico. Eu sei muito bem, não são todos os médicos que são imbecis. Mas fica a pergunta: por que motivo nenhum deles representou contra o tal Ato?

Para quem ainda não o conhece, sugiro uma busca no Google, mas, resumidamente, é uma tentativa proposta por um senador (médico) em tornar privativo dos médicos o exercício de diversas atividades, hoje sob a tutela de outras categorias profissionais. No texto original, todos os procedimentos invasivos (como uma simples injeção até o passamento de uma sonda nasogástrica), diagnósticos citopatológicos, diagnose de doenças inclusive mentais, precisariam, obrigatoriamente, ter o seu início em uma consulta médica.

Nem é preciso dizer quanto dinheiro isso iria movimentar dentro do bolso dos profissionais de uma das categorias que mais sofre processos por assassinato. Quanto à incompetência médica, não precisamos ir longe: em uma cirurgia, o médico esqueceu gaze dentro da paciente, que foi a óbito. Isto aconteceu com duas pacientes dentro de uma mesma família com a qual tenho relações, e com médicos diferentes.

A questão é o corporativismo patológico destes vampiros que, no lugar de investir na melhoria dos cursos de Medicina do país e em políticas educacionais que eliminem a “Síndrome de Meu Filho é um Deus” que acometem as mães dos animais que são aprovados no vestibular de Medicina e que, por isso, alimentam a síndrome de “Eu Sou o Dono da Sua Vida” dos ainda projetos de profissional, preferem, então, proteger os médicos contra a evasão natural dos consultórios. Em resumo, as pessoas, com medo de morrer, têm recorrido cada vez menos aos médicos e, como reação, eles agora tentam obrigá-las a passar pela mãos dos seus algozes. É tudo em nome do dinheiro, e nada mais.

Ao ser aprovado no vestibular, os estudantes de Medicina prontamente organizam as suas “chopadas”. Chopadas! Um bando de bêbados enchem a cara de cerveja e outras bebidas, anunciando à Sociedade que aquele é o início de mais uma geração de “responsáveis pela saúde geral”. Depois, bêbados, matam seus colegas afogados em piscinas de USPs, violentam mulheres, espancam outros calouros e, por fim, atropelam pedestres na volta para casa. Como estavam bêbados, os pais correm às delegacias para que seus filhos não passem a noite na cadeia. “Meu filho?! Estudante de Medicina, dormi na cadeia!? É uma humilhação desnecessária! Todos cometem erros!”. Esta “humilhação desnecessária”, senhores pais, é exatamente o que dá ao Homem algo de extremamente importante: a noção de responsabilidade.

Mas, então, “responsáveis pela saúde”, irresponsáveis? É um contrasenso que a cegueira geral não permite enxergar. O “Clube de Privilégios” criado pela seita Católica, quando configurou o “Paraíso” como sendo o lugar onde os eleitos se regozijam olhando, do alto de seu favorecimento, os suplícios sofridos pelos condenados ao inferno, hoje foi tornado real. Nossas beatas, nossa “juventude cristã”, nosso protestantismo de discursos de um deus beligerante, nossa crença de que, por comermos biscoitos salvacionistas em igrejas, somos melhores que os outros: tudo isto alimenta a proposição e aprovação do Ato Médico. Afinal de contas, o fato de ser estudante de Direito e Medicina é o acesso a uma espécie de Olimpo.

Em frente a uma faculdade, vi um destes estudantes, de terno e gravata, comprando, com R$50,00, um pacotinho de cocaína. Fez a carreira de pó em cima do cartão de crédito, pegou uma nota de dois reais, enrolou e cheirou tudo ali mesmo, encostado no meu carro, dentro do qual eu estava. Terminou e foi-se embora, de volta para a mesa do bar, onde várias garrafas de cerveja descansavam, vazias, e outras ainda por chegar. Isto, claro, ao som de “Chiclete com Banana” que, no Carnaval, reúnem em redor do seu trio elétrico a maior concentração de cheiradores de pó por metro quadrado da avenida. Amanhã, aquele estudante viciado estará por detrás de uma mesa de consultório, tomando conta do seu rim, do seu pulmão, do seu sangue.

Que me perdõem os médicos sérios, honestos e comprometidos, já tão raros neste país. Infelizmente, o nome de vocês vem sendo jogado na lama pela enorme maioria de seus colegas, contra os quais vocês já não têm força alguma.

Quanto ao leitor, com o Ato Médico o seu plano de saúde ficará mais caro. O número de mortes também aumentará. Continue defendendo a idéia de que “política e religião não se discute” e o próximo a morrer em uma mesa de cirurgia ou durante o passamento de uma sonda nasogástrica pode ser você.

1 Comentário »

  • Thífani disse:

    Caro Marcelo, só para somar!
    Seu texto fez-me lembrar do “Analfabeto político” de Bertolt Brecht (1898-1956) que diz o seguinte:

    “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro, que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.”
    ___

    Abraços!

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