Subsídios para a compreensão da prática musical
Falar sobre música parece, a princípio, pouco interessante para um público que vive em constante contato com essa arte. E digo o contato não só daqueles que a criam ou a executam, mas também daqueles que fazem dos sons, componente essencial de suas vidas. Portanto, o que proponho discutir é a parte sentimental que a música envolve; a essência que tanto o gênero erudito quanto o popular abarcam.
Do grego mousa ou musa, o termo música refere-se às musas e ao seu fazer artístico. De acordo com o “Dicionário Sesc: a linguagem da cultura” as palavras técnica vem do grego musiké e música de mousika. Etimologicamente, a arte musical preside de duas musas sendo a Euterpe, inspiradora da música instrumental e Aede, protetora do canto. Já sobre os aspectos básicos, Cunha apresenta uma interessante descrição:
A música constitui uma organização internacional, expressiva e audível de sons. Estes, registrados graficamente como “notas”, são vibrações oriundas de corpos (os instrumentos e a voz) e que se espalham em ondas regulares, estáveis e constantes. Na verdade, cada som em particular é um feixe de ondas, um conjunto superposto de frequências (ou colorido sonoro), embora o ouçamos como um fenômeno único. Difere, portanto, do simples barulho, cujas ondas imprimem um efeito físico irregular instável ou confuso para o cérebro.
O conceito de música que Pitágoras e, mais tarde, Platão defendeu, era de que, “o mundo é música e a música é número. A música, por conseguinte, é símbolo, manifestação sensível da ordem do mundo”. Em diversos estudos que compreendem a prática musical, existe a preocupação em contrastar a música erudita da popular. Para tanto, Oliveira apresenta as diferenças de maneira simplificada, entendendo por erudito o gênero musical “racionalizado, consciente, elaborado, concentrado quanto a técnica, conteúdo, estilo”, ao passo que o popular remete ao conhecimento “empírico, sem refinamento técnico, intuitivo, de fácil consumo, descompromissado com técnica, conteúdo e estilo”.
As noções sobre música erudita e popular ajudam a compreender as questões gerais sobre o conceito de música, entretanto, o significado que acolhe os dois gêneros é aquele em que se entende a música como sentimento, produtora de sensações, ou como reforça o teórico Moraes, a “forma de representar o mundo, de relaciona-se com ele e de concretizar novos mundos”. De acordo como autor
[...] música é, antes de mais nada, movimento. E sentimento ou consciência do espaço-tempo. Ritmo; sons; silêncios e ruídos; estruturas que engendram formas vivas. Música é igualmente tensão e relaxamento, expectativa preenchida ou não, organização e liberdade de abolir uma ordem escolhida; controle e acaso. Música: alturas, intensidades, timbre e durações [...]
Na obra “O que é música”, Moraes questiona a respeito da universalidade da arte musical. Ele pergunta se seria mesmo possível, como querem alguns musicólogos, que a música seja entendida por todos os povos. Para o autor, pelo simples fato dela permitir a expressão, mostra-se não universal, já que cada comunidade se expressa de maneira diferenciada. Assim, indaga que a linguagem oral pode ser traduzida a qualquer outra língua sem danos demasiados, entretanto, quando se trata da música, torna-se quase impossível ser traduzida como um todo, permitindo apenas o entendimento em partes. Isso porque a música envolve mais que uma simples oralidade somada ao ritmo; a música envolve todo um sentimento que é específico de algum indivíduo ou grupo. O autor reforça dizendo que “a maneira de construir música varia de comunidade para comunidade, de época para época e, às vezes, de indivíduo para indivíduo. Cada povo, cada momento da história tem o seu próprio sistema de organização musical”. Portanto, mesmo que haja tradução oral e técnica da linguagem musical[1], ela perde o seu sentido ao passo que deixa o sentimento preso ao corpo idealizador. Moraes ainda acrescenta que
Talvez, por isso, fosse menos absurdo dizer que a linguagem musical só exista mesmo concretizada através de “línguas” particulares ou de “falas” determinadas; e que essas manifestações podem até, em parte, serem compreendidas, mas nunca vivenciadas em alguns de seus elementos de base por aqueles que não pertençam à cultura que as gerou.
As ideias defendidas por Moraes lembram a frase proferida por Leadbelly – um dos bluesman mais consagrados do início do século XX – que dizia: “Nunca um branco foi capaz de fazer um Blues, porque não tem nada com que se preocupar, não tem problemas do tamanho dos nossos[2].” Essa frase pode apresentar a relação da música como sentimento específico de grupo, reforçando as questões de Moraes sobre o processo de tradução musical.
Assim, podemos concluir que, independente da técnica, música é sentimento. E isso faz com que as discussões acerca do que vem a ser a “verdadeira arte musical” sejam subjetivas, ao passo que tanto a música erudita quanto a popular são revestidas de sentimentos e repertórios particulares de seus idealizadores. Visto dessa forma, em muitos casos, pouco importa o conhecimento científico de seus idealizadores sobre a arte. Erudito e popular, quando se trata de música, possuem a mesma importância cultural.
Contato: thifani@terra.com.br
1 Qualquer música pode ser transcrita por meio da linguagem técnica (partitura) e executada por qualquer indivíduo capaz de decodificar essa linguagem.
[2] Frase encontrada na obra ”Blues: da lama à fama”. MUGGIATI, Roberto, 1995.
REFERÊNCIAS
CUNHA, Newton. Dicionário Sesc: a linguagem da cultura. São Paulo, SP: Perspectiva: Sesc São Paulo, 2003.
COTTE, Roger J. V. Música e Simbolismo: ressonâncias cósmicas dos instrumentos e das obras. São Paulo, SP: Cultrix, 1997.
MORAES, J. Jota de. O que é música. São Paulo, SP: Brasiliense, 1983.
MUGGIATI, Roberto. Blues: da lama à fama. São Paulo, SP: Editora 35, 1995.
OLIVEIRA, J. Zila de; OLIVEIRA, Marilena de. Prática de estruturas Musicais. São Paulo, SP: MCA do Brasil Editora Musical, 1977.
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Muito bom o texto. Queria fazer uma sugestão: O texto cita o livro “Blues: da lama à fama” do Mugiati, mas, pesquisando o gênero, percebi que é um livro superficial e impreciso. Sugiro dois grandes livros sobre o tema: “Blues”, de Gérard Herzaft, editado no Brasil pela Papirus, introdutório e bem organizado, e “A história social do jazz”, de Eric Hobsbawn, não lembro agora a editora, mas que dedica importantes capítulos ao blues.
Olá Marcos, tudo bem?
Fico feliz em receber comentários de alguém que admiro e acompanho o trabalho!
Conheço quase todas as obras traduzidas que tratam do tema Blues, mas a do Gérard Herzaft, não conhecia! Muito obrigada por lembrar!!
Citei apenas o Muggiati porque retiro a frase de Leadbelly de seu livro.
Precisamos conversar mais vezes para trocarmos figurinhas!!!
Acabei de comprar o box “The Blues” – Martin Scorsese com 7 documentários sobre o gênero!!
Também possuo a coleção completa de “Mestres do Blues” – essa foi um achado! Aliás, Sr. Muggiati praticamente tragou essa coleção em “Da lama à fama”.
Bom, não vou me alongar, gostaria muito se vc pudesse contribuir para a minha pesquisa!
Abraços!!
Thi, show! Não precisei ter uma ‘base’ para entender tudo! (risos)
Ficou muito claro, mas ainda quero suas maiores explicações e comentários pessoalmente!
Beijo!
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