Com todo o respeito ao José Wilker, mas…
No livro “Os Fenômenos Espíritas no Mundo Animal”, o pesquisador espírita Carlos Bernardo Loureiro resgata uma colocação de Ernest Cassirer: “Com sua universalidade, sua validade e sua aplicabilidade geral, o princípio do simbolismo é a palavra mágica, o ‘abre-te Sésamo!’, que dá acesso, especificamente humano, ao mundo da cultura. Uma vez que o homem se acha de posse desta chave mágica, tem assegurado o progresso ulterior”.
Cassirer não falou à toa: o simbolismo mágico, cultivado pelas doutrinas Ocultistas, salvou da destruição uma série de conhecimentos e idéias que estavam ali, nos signos e símbolos, encerradas. Diante do avanço do catolicismo sobre tudo o que era acorde com a sobrevivência, a comunicabilidade e a reencarnação, foi necessário, então, criar o Ocultismo (mais tarde revelado pelo Espiritismo, elucidando as suas bases e retirando as suas roupagens simbólicas), que não tinha por intenção o culto a diabos ou atitudes maléficas: apenas necessitava esconder das garras católicas aquilo que era mais caro aos livres-pensadores.
Hoje, na cerimônia do Oscar (e nem vou comentar a pífia apresentação da Maria Beltrão, errando até na tradução de coisas simples, quando se arriscava a tal), o José Wilker demonstrou estar muito preocupado pelo filme Avatar ocupar um lugar de destaque, já que, segundo o (merecidamente) respeitado ator, a obra é “muito mais para ser vista, do que para ser entendida”, ou “pobre de conteúdo, ou pretensamente intelectual”. Permita-me Wilker, mas tenho de discordar dele.
Sim, Avatar é riquíssimo em visual gerado por computador, mas não se resume a isso. O que poucos conseguem perceber – justamente por falta de conhecimento – é que o filme resgata muitos daqueles símbolos e rituais, confrontando-os com o que nós consideramos como “modernidade” – não na acepção do período histórico, para os fiscais de plantão.
O corpo que usamos não nos pertence, embora esteja temporariamente a nosso serviço. As suas partículas fazem parte do planeta, e já serviram para compor outros seres vivos e até mesmo inanimados. Trazemos o carbono que esteve presente em corpos jurássicos; o hidrogênio que já esteve na atmosfera, entre outras partículas. A cremação – e aqui incluo as reflexões sobre a comprovada existência do Perispírito – é uma agressão ao próprio planeta, que nos fornece um corpo em perfeitas condições de uso, e que devolvemos completamente adoecido e infectado pelos resultados de nossas posturas: álcool e outras drogas. Quer queiram os leitores, quer não, a matéria cuja construção nós desvirtuamos constitui uma contaminação no planeta – e os efeitos disto ainda não foram dimensionados.
O primeiro ponto de confrontação entre as idéias ocultistas e as contemporâneas: na nave, um corpo é cremado, enquanto em Pandora, ele precisa ser devolvido à Natureza da melhor forma possível, após ser usado. Sim, a energia precisa ser devolvida, porque não nos pertence – e não podemos adoecer o planeta com o resultado de nossas evidentes imperfeições morais.
Mais para frente, vemos um outro confronto de ideologias, quando o assassinato de outros seres deve ser feito apenas quando necessário a um fim maior – e não por gula, prazer ou satisfação. Ali, a protagonista deixa bem claro: não deveria ser necessário matá-lo, uma vez que nós é que não fomos hábeis o suficiente para evitar o confronto. Responsabilidade, eis a palavra-chave.
A existência de um meio de comunicação com os antepassados já desencarnados é, também, contida em símbolos ocultistas, um dos quais é representado no filme: a árvore. A reencarnação está presente – assim como a pluralidade dos mundos habitados e a possibilidade de transmigração das almas entre os globos, o que Allan Kardec coloca como “solidariedade entre os mundos”.
O respeito à Natureza e ao Cosmo como estrutura previamente organizada por um ser a nós superior. Mas o (merecidamente) respeitado ator, José Wilker, demonstrou não possuir subsídios para tal análise. Nada mais justo, uma vez que ele se especializou em atuar, não em pesquisas psíquicas.
Por isso talvez não entenda os rituais representados na obra de Cameron e qual a sua real significação para as sociedades antigas.
A justiça precisa ser feita: o trabalho de James Cameron é muito bom em levantar dois questionamentos, unindo-os em uma só e maior pergunta: o mundo ao qual nossa postura cultural nos está levando é realmente válido? O mundo ao qual o respeito às idéias simbolizadas no Ocultismo teria nos levado, caso as respeitássemos, traz progresso?
E, então, como em uma visão realmente sólida, ele nos impele a uma tomada de posicionamento, dando-nos o resultado de duas posturas divergentes; a predatória, iniciada com a destruição católica daqueles princípios aos quais os “sabidos” de hoje em dia apenas se referem como “lendas” e “crendices”, “superstições”; e a construtiva, guardada nas simbologias ocultistas. E a pergunta que vai muito além do que José Wilker soube enxergar: qual dos dois mundos é o melhor?



Olá Marcelo!
Gostei das considerações sobre o Avatar. =)
As questões abordadas pelo filme sobre culturas, energias e, principalmente, repeito – tanto à natureza quanto ao próximo -, são abordadas de maneira inteligente.
Abraços!
.
Sim, Thífani! Confesso que não esperava tanto de James Cameron, mas o filme denota, senão um trabalho de pesquisa meticuloso – uma vez que chega a reproduzir certos conceitos e rituais com fidelidade -, ao menos uma agudez de visão ímpar. Infelizmente, os clichês de “The hurt locker” prevaleceram.
Ainda estou me devendo uma sessão “Avatar” no cinema. Enquanto isso segue artigo interessante de João Pereira Coutinho,sobre o filme, publicado hoje na Folha de S. Paulo.
http://fernandohleme.wordpress.com/2010/03/09/a-culpa-em-3d/
É uma pena o João Pereira Coutinho não ser capaz de enxergar além dos simplórios clichês. Isto prova que ele, também, não possui nada que vá muito além dos mesmos…
Confesso que também não gostei do texto de Coutinho. Achei-o limitado demais. Um pouco discriminatório, talvez…
Mas, como recebemos informações diversas a partir de nosso próprio repertório, prefiro não me estender.
Deixo uma sugestão: Quem ainda não assistiu Avatar, que não veja no formato 3D, assim se prende melhor à mensagem e não apenas aos shows dos avanços tecnológicos.
Para apreciar somente a tecnologia 3D, aconselho esperar para conferir Alice no País das Maravilhas, Toy Story 2, Gremlins, e tantos outros, que serão lançados, em breve, nesse formato.
Para terminar, achei a conclusão de Coutinho batida demais. Não é de hoje que o cinema vem apresentando temas como este, cheios de “sermões”, como apresentado pelo autor. Avatar apenas os abordou de maneira inusitada! E essa é a minha opinião.
=)
Marcelo, seu artigo traduz parte do que eu mesma avaliei do filme, dentro da minha visão não tão conhecedora do “ocultismo” ou de rituais.
A mensagem mais importante, pessoalmente falando, é justamente a resposabilidade que temos sobre este mundo em que habitamos com tanta displicência. Olhando para o filme, nem consegui separar um planeta de outro; para mim, era tudo uma coisa só, como assim o é de fato: temos uns que se preocupam em manter a alma, a consciência e o espaço limpo e outros que estão presos à “seta dourada” – que pode ser conhecida aqui http://storyofstuff.org/ (recomendo fortemente que vejam e até baixem os vídeos, gratuitos no site).
João Pereira Coutinho, José Wilker e tantos outros estão cansados dos shows visuais que o cinema convencional apresenta – eu também estou. Mas não se deve fechar os olhos aos códigos quando são valiosos. O cinema americano já provou que sabe muito mais sobre os bastidores políticos (previram até Arnold Schwarznegger presidente dos EUA muito antes dele pronunciar seu interesse pelo assunto publicamente). Finalmente, usaram o que sabem não para criar chacotas sobre a existência fora do planeta unicamente, mas para nos dar um sinal de que algo muito ruim está acontecendo com a gente, como indivíduos e sociedade.
Não entendi o comentário sobre o Schwarznegger (esse é punk de escrever hein?) presidente…
Thífani: boa observação sobre o 3D. De qualquer forma, acredito que o ideal é que a forma de apresentação do conteúdo não deva ser capaz de interferir em nossa percepção.
Lívia: concordo perfeitamente com a afirmação de que não se deva fechar os olhos: filmes são criação nossa e, como tais, podem trazer pontos de vista catastróficos ou descortinadores. Não são as nossas crenças e convicções que determinarão se são bons ou ruins, mas a validade das idéias neles contidas e – o mais importante – a sua capacidade de incitar ao PROGRESSO das idéias.
Fernando: não se preocupe, pois não esqueci o que você pediu sobre as pesquisas – embora o nome da instituição financiadora não determine absolutamente nada sobre a validade das pesquisas, não sejamos tolos. Mas colocarei os dados solicitados, pode ficar tranquilo.
É, o nome da instituição que financia a pesquisa não influencia em nada. Foi só coincidência que 90% das pequisas financiadas pela Souza Cruz concluíram que o cigarro é inofensivo à saúde. Tolice minha.
Sobre o Schwarznegger, isso apareceu em um filme, não lembro se “Nova York sitiada” ou outro (posso verificar depois). Mas era uma cena em que havia uma biblioteca ou museu com o nome do “Presidente Arnold Schwarznegger”, em sua homenagem. Fragmentos como este e filmes que colocam em dúvida até se o homem pisou na Lua não são meros devaneios do cinema na minha opinião. Incluo aqui também os que falam sobre clonagem humana muitos anos antes de se falar no assunto.
Para mim, o filme “Avatar” alerta para uma questão que, não por acaso, suscitou o próprio post: a responsabilidade irrefutável que temos sobre ambiente, sociedade, cultura, e tudo o mais onde estamos inseridos e a possibilidade (e aqui coloco como minha opinião pessoal) de estarmos indo e vindo neste mundo ciclicamente, em forma de partículas que se dissolvem e se refazem, dando origem a novas vidas de todos os tipos.
É algo que faz sentido para mim e alguns, mas “não tem a menor pretensão de convencer” (Lulu Santos).
=)
Ah tá, é que como o Schwarznegger não é presidente dos EUA (nem pode ser, já que não nasceu lá) estranhei o comentário sobre a “previsão”. Ele é (um mau) governador da Califórnia atualmente.
Justamente! O filme falava justamente sobre a lei que teria sido aprovada: estrangeiros poderem se candidatar à presidência!
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