Quem, além de Leoni?
“Enquanto a noite e o céu desabam sobre mim…”
Poucas vezes eu respirei tão fundo na vida. E também não foram muitas as vezes em que eu me senti tão quieto, tão observador de tanta coisa ao mesmo tempo. Inclusive, das minhas próprias reações, que variavam entre impulsivas e insignificantes. Daqui a algumas horas eu entrevistaria não apenas um dos grandes ídolos do rock nacional, mas, uma parte significativa da minha história. Era com o autor daquela tal música dos Garotos que eu ouvia ao longe, ainda menino, naqueles brilhantes fins de tarde que somente a infância nos proporciona. Eu iria trocar palavras com o cara que escreveu o refrão mais misterioso que eu já ouvi. Sem exageros e sem lapsos de loucura, Alice (Não escreva aquela carta de amor), sempre me soou a coisa mais imaginativa do mundo. Como assim? Alice, não escreva aquela carta de amor? Só isso, sem rodeios mesmo? Talvez por ser tão direto, esse refrão que parece ser (e realmente é) tão simples, me cause um impacto que nem eu sei explicar o quanto. O que sei, o que eu sempre soube, é que um dia eu teria a oportunidade de estar frente a frente ou simplesmente através de uma linha telefônica ou mesmo um email com algum dos meus ídolos. O que não sabia, o que eu jamais poderia prever é o quanto esse momento seria, ao mesmo tempo, inesquecível e devastador.
“Quando universos colidem…”
Depois de algumas trocas de emails e Tweets, um telefonema relâmpago e algumas idas e vindas de viagens e shows, enfim, consegui marcar minha entrevista com Leoni. Havíamos feito o nosso primeiro contato há uns dias, pelo Twitter, e desde então, com certa constância, começamos a trocar algumas poucas palavras pelo mundo virtual. Apesar de, como analista de sistemas, conhecer bem a quebra dos limites da comunicação que a internet causou ao mundo, tudo parecia meio louco quando nos falávamos. Afinal, Leoni fez e faz parte de muitos momentos não só meus, mas, de muita gente que eu conheço e de outras tantas pessoas que eu não saberia dizer sequer a cor do cabelo.
Isso é divino.
Às vezes, quieto aqui no meu canto, fico pensando nessa capacidade imensurável que a arte como um todo tem de mudar a vida de uma pessoa. A música, suponho até que principalmente ela, tem uma responsabilidade tão grande que as vezes assusta. Me arrisco dizer que hoje as pessoas se vestem de canção em pelo menos uma parte do seu dia. É uma roupa indispensável. É a vestimenta da alma.
Acho então que esse seria o grande segredo pra que a entrevista fluísse de maneira espontânea e verdadeira. Eu precisava entrar no mundo do garoto do Colégio Santo Inácio que começou a aprender violão muito cedo, aos 9 anos, com uma péssima professora.
Eu não diria o mesmo do futuro de seu “pupilo revoltado”.
“O meu futuro brilhante talvez não fosse meu e agora eu ando perdido…”
É início de noite e eu começo a fazer minhas orações, minhas últimas anotações e o que mais eu pudesse pra que tudo saísse perfeito (ou perto de uma coerência no que eu falasse e também no que eu ouvisse). Algumas pessoas me cercam, são pessoas que eu amo. São pessoas que se vestem de canção. O telefone está logo ali, o notebook também. É só uma questão de tempo. Eu teria premeditado tudo…
“…mas, tudo aqui é improviso”
Sim, é claro que eu queria ter gravado a entrevista para transcrever tudo tal qual Leoni falou mais facilmente, entretanto, não foi possível. Eu poderia listar os vários motivos para isso não ter acontecido, mas, prefiro dizer que simplesmente não pude por motivos técnicos. Meu telefone não tinha viva-voz e o MP4 que sempre gravo tudo quebrou justamente no dia (sic, simplesmente).
Mas, não desanimei!
Resolvi ter uma conversa com Leoni, saber se sua história, de seus momentos inesquecíveis, de seus planos, das inspirações musicais e ir anotando simultaneamente para depois juntar tudo e transformar em uma espécie de “entrevista biográfica”.
Agora, era um notebook na mão e um milhão de perguntas na cabeça!
“A ciência confirma os fatos…”
Leoni me perdoe se eu estiver errado. Nem quero levar isso como verdade absoluta. Mas, na primeira ligação que fiz, acho que foi sua esposa, Luciana Fregolente, quem atendeu. Na hora, senti um friozinho na barriga, afinal, não se tratava da esposa de Leoni simplesmente (e eu nem sei se era ela mesmo no telefone), mas, sim de uma excelente atriz e compositora que também nutre de mim total respeito e admiração. Ela (ou qualquer outra pessoa não menos especial daquele ciclo familiar) me relatou que ele não estava em casa e que eu ligasse para o celular dele. Liguei, marcamos em dez minutos.
Retornei a ligação dentro de meia-hora.
“Quero inventar a estrada enquanto avanço…”
Antes de mais nada, agradeci pela oportunidade da entrevista. Agradeci pela paciência, disponibilidade e principalmente pela naturalidade de como tudo havia se dado e de como estava acontecendo. Leoni é um artista muito solícito e isso era fundamental para a nossa conversa, que eu começo a lhes contar agora.
O INÍCIO
Leoni: “Como eu não tinha ninguém na família que me ensinasse, fui procurar aprender a tocar violão. Comecei muito cedo com uma professora muito ruim. A gente ia pra casa dela, anotava uma música no caderninho e se aprendesse, copiava outra, e assim sucessivamente”.
Foi com esse relato que Leoni começou a me descrever seu início na música. Me confessou ainda que por conta do metodismo sem embasamentos dessa professora, começou a se interessar em fazer suas próprias composições, pois era mais simples e interessante de aprender.
“Um tempo depois peguei uma professora melhor que me deu as noções que eu precisava”.
A PRIMEIRA BANDA
Na época de uma das grandes transformações da história do rock, onde toda a sofisticação de arranjos, letras e instrumentos do início dos anos 70 dava espaço para a despretensão e a simplicidade criativa do Punk já nos meados dos anos 80, Leoni se viu inserido num cenário que favorecia todo adolescente com a mente fervilhando a mil por hora.
Junto com Carlos Beni, seu eterno companheiro de música, Pedro Farah e mais outros estudantes, Leoni movia-se pela paixão musical. Era uma turma que amava música.
Leoni: “Havia uma loja de discos no Rio de Janeiro chamada Modern Sound, era a maior. O Pedro Farah sempre fazia conta la e pegava o disco que quisesse”.
E la se foram os garotos do Colégio Santo Inácio fundar a banda Chrisma, oficialmente, a primeira banda de Leoni, quando ele tinha exatos 16 anos.
Leoni: “Como já havia uma grande gama de guitarristas, eu queria garantir o meu lugar na banda e fui aprender a tocar baixo”.
Entretanto, passado o fervor da época, como Leoni mesmo resume: “As pessoas da banda foram se tornar pessoas sérias com suas profissões” e ele, não menos “sério”, continuou com o grande sonho de viver dentro da música. E isso o fez ir atrás de outros integrantes e um novo projeto musical.
Seria o início de uma banda que embalaria os anseios e os romances de toda uma geração.
KID ABELHA E OS ABÓBORAS SELVAGENS
“A Paula era minha amiga do Curso de Francês. O George eu conhecia da PUC do Rio, mas, faltava um guitarrista. Passamos um tempo procurando até que o Torquato Mariano, que na época estava com o Marquinhos Moura, nos indicou um. E ai apareceu o Bruno.”.
Reconhece esses nomes citados assim, tão intimamente? Paula, George e Bruno? Talvez se colocarmos um Toller ali, um Israel acolá e um Fortunato no meio, as coisas ficaram mais claras, não é verdade?
Bem, passada essa fase de recrutamento musical, agora era a hora da banda ter um nome. Como Chrisma remetia muito aos vários nomes de bandas ligadas ao Rock Progressivo, surgiu a necessidade de um nome diferente.
E que lista de nomes surgiu!
Leoni: “Então começou a seleção de nomes ruins! Tinha…é…Morangotangos, Eva e os Viados…esse último ia pegar mal e descartamos logo. Então, quando levamos nossa fita demo para a Rádio Fluminense, tínhamos que decidir um nome e Kid Abelha e os Abóboras Selvagens era o primeiro da lista. E ficou. Eu sempre gostei muito dele”.
O ano era de 1983.
Na época, a Rádio Fluminense era conhecida por abrir espaço para as bandas que estavam começando, bastava uma fita demo debaixo do braço.
Inicialmente, o Kid lançou um compacto pela Warner Music, com uma música no lado A (Pintura Íntima) e outra no lado B (Por que não eu?).
Era o então primeiro passo da “Fábrica de Hits” (eterno apelido da banda) dos fervorosos jovens Paula Toller, George Israel, Bruno Fortunato e Leoni.
Era também a estréia de um novo grande compositor.
“São sempre os mesmos sonho de quantidade e tamanho…”
Seu Espião foi o primeiro Disco da banda. Na verdade, mais que um disco, foi uma explosão de músicas que marcaram toda uma década. Eram canções que falavam das várias formas de amor, do ingênuo e romântico ao obsessivo, do famoso TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), de sexualidade e mais uma arsenal de sentimentos que afloravam na juventude dos anos 80. De uma vez só, a banda emplacou sete músicas nas rádios, um feito: Alice (não escreva aquela carta de amor), Pintura Íntima, Fixação, Nada tanto assim, Seu Espião, Por que não eu? e o até hoje maior sucesso do Kid, Como eu quero, todas escritas por Leoni.
A banda começou a ganhar notoriedade e em 1985 participa do show que o próprio Leoni classifica como um dos mais inesquecíveis da sua carreira, o Rock In Rio I.
Leoni: “Lembro que subi num praticável que tinha escrito o nome Kid Abelha e vi todas aquelas milhares de pessoas cantando ‘Como eu Quero’. Por alguns segundos, eu parei de tocar e fiquei olhando pras elas, extasiado…E a galera da banda olhou pra mim, foi quando eu me dei conta que eu não estava tocando. Foi um momento realmente emocionante, inexplicável.”
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Vídeo: Trecho de \”Como eu quero\”, no Rock In Rio I (1985)
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E no embalo do crescente sucesso, o Kid lança o seu segundo álbum. Educação Sentimental era o amadurecimento musical de Leoni, assim como de todo o grupo. O então baixista e compositor se reinventava em canções que falavam de suicídio, relacionamentos e uma tal fórmula para o amor. Deste disco, destacam-se: A Fórmula do amor, Os outros, Educação Sentimental I e II e Lágrimas e Chuva.
Leoni ainda compôs para esse álbum o prenúncio de seu maior sucesso cujo refrão, anos mais tarde, seria cantado por todos os cantos do país incessantemente.
Era o início da saga da fantástica canção Garotos e seus dois lados.
HERÓIS DA RESISTÊNCIA
Estamos em 1986 e o nosso “Herói” deixa o Kid Abelha e os Abóboras Selvagens para se dedicar a outro projeto. Visivelmente mais maduro em suas letras e assumindo de vez a condição de Front Man de uma banda, Leoni funda os Heróis da Resistência, juntamente com Jorge Shy (guitarra), Lulu Martin (teclados) e Alfredo Dias Gomes (bateria).
Leoni: “No nosso primeiro disco, que se chamava Heróis da Resistência, tiveram destaques as músicas “Double de Corpo”, “Nosferatu” e emplacamos o primeiro lugar nas rádios com a canção “Só Pro Meu Prazer” que tocou muito mesmo , foi bastante executada”.
Como se vê, o Hitmaker “resistiu” sem precisar de muito “heroísmo” à sua saída do Kid. Sua capacidade de compor sucessos aliada a recente e definitiva postura de vocalista se mostraram fortes, como todo bom Herói deve ser.
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Vídeo: Heróis da Resistência – Só pro meu prazer
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“E hoje estou de volta a vida…”
Religio é o título do segundo disco da banda e com ele vieram desentendimentos com a gravadora e problemas com orçamento. Como o álbum, que foi gravado em Los Angeles, saiu muito caro, a banda retornou ao Brasil sem dinheiro para a divulgação e o disco chegou a ficar, como disse o próprio Leoni, “encostado” na gravadora.
Apesar de tudo, a canção Silêncio conseguiu bom destaque e a banda mostrou que também sabe flertar com outros estilos, como o Eletrônico.
Leoni: “Mesmo com orçamento muito apertado, ainda gravamos um terceiro disco, que seria também o último da banda, o Heróis III. Desse disco,“Canção da despedida”, “Diga Não”, “O que eu sempre quis” e a versão original de “Um herói que mata” (uma das principais músicas da nova turnê, A Noite Perfeita), com guitarra distorcida e tudo mais, tiveram bom destaque. Na época, início dos anos 90, aconteceu a explosão do Axé no Brasil e o Rock começou a ficar mal visto pelas gravadoras. Já em 92, a banda, devido a desentendimentos internos, chegou ao seu término”.
Era o fim dos Heróis que, por coincidência ou não, tinha como título da última música do último álbum: O fim da estrada.
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Vídeo: Heróis da Resistência – O que eu sempre quis
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CARREIRA SOLO
Em 1993, de gravadora nova (EMI), Leoni entra em estúdio para gravar seu primeiro trabalho solo, intitulado Leoni, que contou com a participação dos Heróis e de George Israel, pra se firmar definitivamente no meio musical como grande artista que sempre foi.
E essa firmação não poderia vir com uma canção melhor.
Garotos II – O outro lado, continuação de Garotos do segundo álbum do Kid, pra variar, explodiu. Durante 6 meses, foi executada sem cessar nas rádios de todo o Brasil.
Época dos meus brilhantes fins de tarde. Impossível, é simplesmente impossível esquecer de quando aquele sedutor refrão tornou-se febre entre os literais garotos eternizados na canção, submissos aos encantos e mistérios das mulheres.
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Vídeo: Garotos II – O outro lado
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“Por que eles nunca tiveram, nem vão ter, nada como eu e você…”
Apesar do enorme sucesso de Garotos II – O outro lado, o CD também é recheado de outras ótimas canções como: Nada como eu e você, Falando de amor e Carro e Grana.
Entretanto, munido de vários motivos, entre eles, as novas exigências mercadológicas dentro da música, Leoni passa um tempo parado, sem gravar nada. Precisamente, 4 anos, quando lançou pela Geléia Geral, selo de Gilberto Gil, o single Tudo sobre amor e perda.
Nesse meio tempo, vários acontecimentos marcaram sua vida, como o nascimento de seu primeiro filho, em 95, e o lançamento do livro “Letra, música e outras conversas” onde entrevistou artistas consagrados da sua geração: Renato Russo, Herbert Vianna, Lobão, Frejat, Adriana Calcanhotto, Marina, Samuel Rosa e Nando Reis.
Esse single lançado pelo selo de Gil, viria a compor, anos mais tarde, o trabalho que marcaria a volta de Leoni a cena.
“A vida me surpreende e o dia vem me lembrar que todo dia é tudo diferente…”
Você sabe o que eu quero dizer é, com certeza, o disco mais Brasileiro do cantor e também o primeiro pelo seu selo, Batuque Elegante. Feito com a nova receita independente e distribuído pela Warner, o disco não atingiu uma enorme quantidade de vendas, mas, marcou o reinicio de sua carreira após anos sem lançar nada de novo, apenas emprestando composições a outros artistas e fazendo participações especiais.
Melhor pra mim e Temporada das Flores destacam-se como sucessos deste disco. É um trabalho bem diversificado e as canções aos poucos vão remetendo o ouvinte ao samba (“Samba e Saudade”), a MPB (“Mais perguntas que respostas”), ao rock (“Napalm no morro”) e tudo isso sem bateria, mantendo uma espécie de suavidade característica dos novos ares que Leoni começava a respirar.
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Vídeo: Clipe de \”Melhor pra Mim\”
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“Depois do inverno é a vida em cores…”
Em 2003, Áudio-Retrato ou Auto-Estrada, registros da minha vida emprestada, foi um verdadeiro choque para milhares de pessoas que não conheciam, digamos, o “grande background” de alguns sucessos que tocavam nas rádios e a aquela altura, nos players dos computadores.
Leoni: “Quando saiu o ‘Áudio Retrato’, muita gente se assustou quando soube que canções como ‘Fixação’ e ‘Lágrimas e Chuva’ que fizeram sucesso na voz da Paula eram minhas. ‘Exagerado’, do Cazuza, então!”
Nesse momento, senti um breve arrepio. Sim, por que Leoni simplesmente começou a me explicar o processo de composição desse grande sucesso do Cazuza e mais, da confiança que um dos grandes poetas dos anos 80 tinha nele.
Leoni: “Quando o Cazuza me enviou a letra, ela veio enorme. Então eu tive que selecionar o que entraria e o que não era possível entrar no resultado final da canção…”
Nesse exato instante, interrompi a conversa rapidamente, com uma pergunta. Talvez guiado pela imensa fama que os canais de comunicação criaram de que ele, Cazuza, era a pessoa mais esquentada e agressiva do mundo (e é claro que isso não é verdade). Quando Leoni me contou que havia modificado seus originais, perguntei sobre a reação de Cazuza ao saber da adaptação de uma letra sua. Instintivamente, usei uma gíria de minha cidade da qual Leoni não entendeu em um primeiro momento.
Ithalo: “E ele não colocou ‘banca’?”
Leoni: “’Banca’?”
Ithalo: “É, ‘banca’. Quer dizer teima, zanga, marra…sabe?”
Leoni: “Ah, não, não, o que é isso?! Era meu amigo, gente boa, confiava muito em mim. Ele havia saído há pouco tempo do Barão e iria iniciar carreira solo. Então, precisava de alguém com bagagem musical para ajudá-lo.”
Em certas horas da entrevista eu achava estar em algum universo paralelo. Não, definitivamente não estou dizendo que os artistas são uma espécie de *Percy Jackson. Mas, é que isso é surreal. Pelo menos, parecia ser surreal antes, quando eu era adolescente e eles só existiam na capa dos discos e dos livros.
“Enquanto a noite passa por mim, eu rego o seu jardim, você já vai voltar…”
Ao notar o enorme sucesso do Áudio Retrato, a gravadora convida Leoni para a gravação do disco Ao Vivo.
E o resultado não poderia ter sido mais satisfatório.
Foi um estouro! CD de ouro, DVD de ouro e milhares de pessoas cantando as canções de sua vida emprestada. Leoni fez reviver brilhante e suavemente músicas como ‘Os Outros’ e ‘Como eu Quero’, sucessos que ele nunca antes havia gravado com sua própria voz, apenas como baixista e compositor. Era, com certeza e depois de muitos anos, a consolidação definitiva do sucesso do cantor.
“Depois de tanto tempo eu durmo em paz…”
Nesse época, a internet começou a se tornar um fenômeno mundial. As pessoas estreitavam relações e compartilhavam seus interesses numa velocidade alucinante. Leoni, então, resolveu conhecer a nova onda que a cada dia mais ganhava uma proporção maior.
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Vídeo: Fixação – Ao vivo
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Leoni: “Comecei entrando nas comunidades de sites de relacionamento que falavam do meu trabalho. De vez em quando eu comentava alguma coisa, respondia algum tópico. Era um contato mais direto com os fãs.”
Dessa firmação de vez da internet como um grande instrumento de divulgação e contatos mais rápidos e estreitos, surgiu a idéia da criação de um site, que interagisse com o público e falasse de sua vida e obra.
Era o próximo passo. Um outro futuro.
“A gente estende a alma sob o sol…”
Gravado antes do disco Ao Vivo e engavetado, o então renascido Outro Futuro é lançado em 2006. Trata-se do disco mais suave e um dos mais celebrados pelos fãs de Leoni. Usando apenas Violão, guitarra e instrumentos de 4 cordas, a força e a beleza das letras ganha mais notoriedade, desde a carinhosa “Outro Futuro” ao misterioso “O espírito do Tucano”, que Leoni revelou ter sido gravado pelo Pajé da Tribo dos Ashaninkas.
Os Ashaninkas são uma tribo indígena que participou da gravação do Outro Futuro em Paris. Assim que Leoni recebeu o convite, conseguiu levá-los para o show, que logo em seguida se tornaria o segundo DVD de sua carreira, “Leoni e Ashaninkas – Outro Futuro Ao Vivo em Paris”.
Sinceramente, poucos discos me falaram tão alto ao coração com uma voz tão suave, quase um sussurro, quanto este. Outro Futuro é perfeito, em todas as formas. É belo, é tocante, é poético e completamente introspectivo. É um “Greatest Unhits” que deu certo.
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Vídeo: Clipe de \”Quem, além de você?\”
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“Limpar o céu dessas nuvens e te entregar um dia perfeito…”
Leoni: “A maior parte do dinheiro da vendagem do Outro Futuro foi investido no site (www.leoni.com.br). Fiz ele do jeito que eu queria, foi todo um trabalho. Por isso que ele é tão legal. A grande coisa do Outro Futuro foi ter vindo junto com o site. De 2008 pra cá venho lançando músicas nele e vejo as pessoas nos shows cantando músicas que as vezes que nem estão no playlist.”
Desde 2008, Leoni vem investindo no site que hoje conta com uma enorme quantidade de fãs seus. Eles participam e até criam seus próprios tópicos, além de concursos de parceria musical, comentários sobre shows, envio de fotos e vídeos e muitas outras coisas. Atualmente, está acontecendo um concurso pra saber quem será o parceiro de Leoni na canção “Igual a qualquer um”, de letra composta por ele e a espera da melodia perfeita, que ficou a cargo dos internautas. O vencedor será parceiro do cantor na música.
Uma outra grande atração do site é o E-book escrito por Leoni e disponível gratuitamente para download. Trata-se do Manual de Sobrevivência no Mundo Digital. Para os artistas, é uma ótima sugestão de leitura, exatamente pelo contexto da obra e pela intenção de quem a escreveu. Afinal, sobreviver corretamente no mundo digital é um desafio.
Desafio esse que Leoni fez questão de dar sua parcela de contribuição para superarmos.
“Da janela a noite cai nos asfalto, os carros pintam de vermelho e branco a cidade…”
Atualmente com a turnê “A noite perfeita”, o cantor vive sua melhor fase na carreira. Com shows por todo o Brasil, músicas inéditas que já se tornaram hits, como a própria “A noite perfeita”, além da totalmente repaginada “Um herói que mata” do terceiro disco dos Heróis da Resistência. As belíssimas “Do teu lado” e “O amor me espera la dentro” e as ótimas “É proibido sofrer”, “Os amadores”, “Da pra rir e pra chorar”, “Na sala de espera do paraíso”, “Hora de pular o trem” e “Senão agora, quando?” completam a seqüência de inéditas da nova turnê de Leoni pelo Brasil, fazendo shows em lugares que o cantor jamais havia pisado antes, como aqui no Piauí, por exemplo, e algumas outras cidades do Nordeste.
O mais interessante é que no final desses shows, os fãs sempre enviam fotos e vídeos de autoria própria para o site e, em contrapartida, Leoni posta as fotos de antes do show, nas rádios, no camarim, em pontos turísticos da cidade…O maior exemplo do sucesso dessa interatividade do site é que o Clipe da canção que da nome a turnê foi totalmente feito pelos fãs.
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Vídeo: A noite perfeita, com imagens enviadas pelos fãs
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Pra finalizar nossa conversa, Leoni me falou de suas influências e de seus shows inesquecíveis.
Leoni: “Beatles…Muita música Brasileira, da qual sou bastante influenciado. Chico Buarque, o melhor letrista do mundo. Clube da Esquina, Caetano…Tem três caras que considero verdadeiros Deuses: Elvis Costello, Paul Simon e Bob Dylan.”
Leoni: “Shows? Hum…O Rock in Rio I, o show do Audio Retrato, pelo grande público que deu e teve um na Lona de Vista Alegre que por ser um lugar não muito badalado, eu gostei bastante de fazer um show la. Vendi 100 CDs numa só noite, nossa, foi muito gratificante. Ithalo, daqui há mais ou menos 10 minutos eu vou pro cinema com meu filho, então, deseja fazer mais alguma pergunta? Ainda temos tempo…”
Respondi que não. O material que eu tinha em mãos já valia ouro e já me daria um belo trabalho para editar e publicar. Mais uma vez, agradeci muito pela atenção que me foi dada por ele e confessei que eu tinha dois CDs de cabeceira, aqueles que a gente ouve sozinho no quarto. O “Outro Futuro” e o “Líricas” do Zeca Baleiro. Leoni, humilde como sempre, me respondeu com um gentil “Obrigado…obrigado mesmo!”. Nos despedimos para que ambos tomassem dimensões diferentes naquela noite. Ele iria ao cinema com seu filho. E eu demoraria algumas horas ainda para voltar a realidade.
“Mas, como eu começo depois do fim…”
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*Percy Jackson: Personagem SemiDeus do Filme Percy Jackson e o ladrão de raios.
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Ithalo Furtado



A entrevista mais original que já vi,
Leoni é um icone do rock nacional, e sua carreira ficou bem apresentada nas palavra do nosso exímio poeta Ithalo Furtado.
Que matéria!
Que entrevista!
Admiro o trabalho do Leoni, sou fã e vivo cantarolando por ai seus grandes sucessos. Que entrevista maravilhosa!
Um primoroso trabalho de apuração transcrito sob forma de uma matéria que revela além do profissional um conhecedor do trabalho do artista e , principalmente, uma pessoa com a sensibilidade exata para extrair e divulgar o que é essa grande pessoa: Leoni.
Parabéns! Como jornalista gostaria de ter feito essa entrevista mas, confesso, não sei se faria com tanto primor.
Parabéns, Leoni certamente gostou!
Uma verdadeira aula sobre a produção de Leoni, salpicada de admiração pelo trabalho e vida do artista. Ithalo foi feliz em escolher a personaldiade a entrevistar; Leoni foi feliz em aceitar o convite.
Quem, além de Ithalo, é capaz de prender o leitor com um texto longo? Fica aí um bom exemplo de competência profissional multifuncional.
Parabéns a ambos!
Goroto quem não resistiu a sua entrevista fui eu.
Sou fã do Leoni,as canções contam de forma particular a intimidade de uma geração marcada por grandes nomes do rock.
E vc Italo,acho que já sabe o qt o admiro…Parabéns!
Ithalo cara, eu queria te parabenizar pelo ótimo trabalho de escrita e edição. Essa foi uma das melhores matérias músicais que eu já li, sério. Parabéns!
Caro Ithalo, assim como o Leoni, você foi um mestre nas palavras ao escrever esta matéria. Lhe dou os parabéns de coração e atesto tudo o que você escreveu sobre o ídolo, pois senti o mesmo quando fui recebido, pessoalmente, por Leoni aqui em Boa Vista no último sábado, dia 17. Realmente é difícil descrever o que a gente sente quando está frente a frente com um cara que já escreveu tantos hits e outras muitas canções que são simplesmente lindas e que fazem parte da nossa vida. Mas o Leoni acima de tudo é uma pessoa simples, como todo artista de verdade tem que ser, e ameniza qualquer tipo de sensação estranha se aproximando da gente como se fosse amigo de longa data, como aliás, ele faz tão bem através do Twitter e do site. De fato, um artista brasileiro de primeira linha que continua vivo com seus antigos hits e produzindo novos hits de tempos em tempos.
Mais uma vez, parabéns pela entrevista. Muito agradável de se ler. Queria que outros jornalistas fizessem da mesma forma.
Grande abraço!
Engraçado, precisamente dois dias antes da entrevista, estavamos eu e Ithalo conversando sobre o Leoni e afirmando que, pra ambos, o album ‘outro lado’ é muito especial.
O que impressiona na entrevista nao é a simplicidade, humildade ou mesmo o carisma do Leoni, porque quem acompanha sua carreira sabe que esses adjetivos sao quase sobrenome do mesmo. O que impressiona e me enche de orgulho é o amadurecimento e a desenvoltura do Ithalo como poeta-entrevistador.
Parabens meu amigo, otimo trabalho, você conseguiu transpor a barreira entrevistador – leitor, transformando ambos em um unico interlocutor.
Brilhante.
Caramba Ithalo, sensacional.. a entrevista não poderia ter sido melhor, meus parabéns, eu como fã do Leoni a 3 anos vi poucos pontos de vista sobre ele tão completo.
Excelente…
Nossa…uma entrevista bem elaborada e bem feita de uma pessoa tão talentosa e importante para a música brasileira.
Parabens Ithalo!
Meu amigo, você está de parabéns!! =D
Aqui sim, uma excelente entrevista, contada a 1000 detalhes! =*
Me orgulho de conhecer o trabalho desse cara (Ithalo)!!!
Primeiramente, gostaria de agradecer a todas as pessoas que estão comentando e ao carinho que vocês têm com o trabalho desse grande artista que é o Leoni, com o meu e com o da Teia Cultural. O que mais me gratifica é poder ler comentários de pessoas que eu nem conheço, é sinal de que realmente foi realizado um trabalho bem feito que, antes de mais nada, nunca haveria se realizado se não fosse a simplicidade de Leoni e a parceria e amizade de Lívia Gusmão!
Obrigado a todos!
3 Palavras resumem tudo q o Ithalo e o Leoni são:
VC’S SÃO PHODA ! ! ! !
Perfeito…
…sem palavras!!
…tu me orgulha eterno vizinho…
Parabéns!!
Ithalo,
Obrigada por ter colocado em sua entrevista a figura de meu filho, como ele realmente o é!
Foi clara, bem fundamentada e honesta, sem bajulações.
Agradeço a Deus quando realmente reconhecem o talento de meu
filho artista, poeta, cantor e compositor!
Todo o carinho desta mãe super orgulhosa de ambos vocês, como artista e jornalista,
Neila.
Parabéns, adorei a entrevista.
Acho que foi uma das poucas vezes que vi ele retratado tão claramente. Simples, doce e inspirado.
Parabéns e obrigada pelo elogio.
Parabéns Ithalo. Você deu um grande passo nessa sua jornada pela vida cultural!!
Abraço!
Adorei a entrevista! Parabéns aos dois
Cara a entreveista ta D+
O Leoni é um Excelente artista!
Hoje, finalmente, pude ler esta entrevista com a calma que ela merece. É um orgulho ter, na Teia, alguém como o Ithalo, capaz de trazer conteúdo sempre relevante e uma energia para produzir que, infelizmente, não se vê com grande frequência.
Hoje a Teia é construtiva, como a Lívia Gusmão sempre quis que fosse. O Leoni e tantos outros artistas diferenciados que por aqui se expressam e mostram mais da própria alma combinam com esse sonho que, aos poucos, cresce de forma consistente.
A Teia amadurece – e nós, com ela.
Um forte abraço ao Ithalo; prazer em conhecer o Leoni.
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