A atriz Fernanda Sanches: “Todos os personagens estão dentro de mim”
Por Paulo Mohylovski
Fernanda Sanches está no palco vivendo o papel de uma garota de programa na peça “Música para Ninar Dinossauros”. Esta bonita leonina de 28 anos, que além de atriz, canta e dança – e também escreve – está atuando na sua primeira peça de um autor polêmico, Mário Bortolotto. O autor em questão ocupou recentemente os noticiários policiais por ter enfrentado ladrões e tomado três tiros, num bar da praça Roosevelt. A peça passa longe deste acontecimento. O enredo conta a história de três amigos quarentões que fazem um balanço das suas vidas. Para Fernanda Sanches, “a peça tem um lado bem emotivo, melancólico. Eu fico tão emocionada…”
O que é estar em cartaz com uma peça do Mário Bortolotto?
Fernanda Sanches - Eu estou gostando muito de trabalhar nessa peça, porque gosto muito do texto. Acho o elenco incrível. É muito divertido, gostoso, emocionante e fiz grandes amigos no grupo que eu tenho certeza que vão permanecer na minha vida.
É a sua primeira experiência com um autor que é considerado underground?
Fernanda Sanches – Sim, é minha primeira experiência com um autor underground. Eu nunca tinha trabalhado com o Mário, a gente mal se conhecia! E pra mim está sendo uma honra, eu fiquei muito feliz com esse convite. No começo, eu não tinha a menor idéia de como era o processo de trabalho dele e morria de curiosidade. Aprendo muita coisa com seu jeito super particular e íntegro de dirigir e de atuar.
O que você mais gosta de peças consideradas undergrounds?
Fernanda Sanches - O que mais gosto em peças consideradas undergrounds, é que geralmente há um pensamento muito contemporâneo e condizente com o momento da nossa sociedade. É uma forma de olhar à nossa volta e tentar nos compreender ou nos reconhecer no mundo; e esse texto, pra mim, representa um pouco isso, além de ser uma dramaturgia muito boa.
Você faz o papel de uma garota de programa. Fez algum laboratório?
Fernanda Sanches – Não, não fiz laboratório, mas essa não é a primeira garota de programa que faço como atriz. Já fiz umas duas em curtas-metragens.
Nesse caso, não senti necessidade de buscar um laboratório, porque acho a personagem, de certa forma, com seu jeito romântico e sonhador de ser, bem próxima de mim.

- Fernanda Sanches em “Música para ninar dinossauros”
Então, você colocou a sua visão pessoal do que seria uma garota de programa?
Fernanda Sanches - Posso dizer então que sim, que tem uma visão pessoal bem forte na criação dela. Eu penso que todos os personagens estão dentro de mim e que somos capazes de reconhecer um pedacinho de cada tipo em nós, desde uma santa até um psicopata, mesmo que seja naquele lugar mais ínfimo do nosso subconsciente.
Mas você não pesquisou nada?
Fernanda Sanches - A única coisa que eu realmente pesquisei, é a época dela, porque as minhas cenas se passam nos anos 80, então eu busquei imagens, filmes, etc… de garotas de programas dessa época pra me aproximar dela. O figurino ajudou muito nessa concepção.
Vocês, do elenco, parecem felizes atuando. Existe mesmo este sentimento de felicidade?
Fernanda Sanches – Sabe que sim! A peça é muito divertida! E sinto que a gente se gosta e se admira, há um clima muito bom no trabalho! Mas a peça também tem um lado bem emotivo, melancólico, eu fico tão emocionada nas coxias, escutando as cenas dos outros atores…
Quando uma atriz começa uma carreira, ela atua em diversos gêneros: do infantil aos musicais, passando por teatro clássico e contemporâneo. Qual dos gêneros você mais gosta de atuar?
Fernanda Sanches – É verdade, já fiz tudo isso! Olha, eu gosto de um bom texto, de uma boa história, ou de um bom conceito para o espetáculo. Não sou muito de ver comédias, gosto mais de textos dramáticos, clássicos ou contemporâneos, mas também adoro peças pós-dramáticas, teatro físico, e outras formas cênicas mais corporais, sem ter necessariamente um texto escrito para a peça.
Você alguma vez teve dúvidas entre ser atriz ou outra carreira?
Fernanda Sanches – Não, nunca tive dúvida. Desde que nasci, quis ser atriz, sempre foi meu grande sonho, e eu pensava sobre ele todas as noites antes de dormir. Embora eu sempre me imaginasse atuando mais em cinema do que em teatro, o teatro surgiu na minha vida como a maneira que eu compreendia que um ator deveria aprender a atuar. Quando de fato comecei, lá pelos meus 13 anos, o teatro ficou, porque é realmente algo apaixonante…
E a dança? Você também dança, não?
Fernanda Sanches - Eu gosto muito de dança, faço faculdade de dança até, atualmente! Eu sempre dancei, em festas, baladas, qualquer lugar! Na adolescência, eu tinha um grupo de amigas e a gente saía pra dançar e ficava a noite inteira dançando mesmo! A gente não ficava com ninguém, a gente não parava de dançar um minuto! Então pra mim, a dança sempre foi um lazer, uma válvula de escape de tensões, uma diversão.
Eu realmente gosto muito de dançar, é engraçado porque a primeira fala da minha personagem na peça é: -“Eu quero dançar!”. Uma super coincidência!
Mas você tem um trabalho profissional com a dança?
Fernanda Sanches - Eu comecei a olhar para a dança mais profissionalmente quando eu me formei como atriz e queria pesquisar mais meu corpo, achava que meu estudo corporal na escola tinha sido muito defasado. Foi aí que conheci a dança-teatro de Pina Bausch, o butô de Higikata e Kasuo Ohno e muitas outras coisas que fiquei apaixonada, porque era corpo, era dança, mas tinha essa narrativa, essa dramaticidade que é o que eu busco no teatro, não é a dança só pelo movimento. Em trabalhos desse tipo, eu me vejo atuando como dançarina sim.
E o canto? Você também canta?
Fernanda Sanches - Eu amo cantar! Já fiz espetáculos onde eu cantava, solava até, já estudei com algumas pessoas maravilhosas, como a Andréa Drigo, por exemplo, que tem toda uma linguagem própria e linda pra dar aula, mas ainda preciso me aprofundar mais pra me sentir segura mesmo como cantora.
Mas como você se vê: atriz, cantora ou bailarina?
Fernanda Sanches – Na verdade nunca deixo de me ver como atriz, seja dançando, cantando, voando pelos ares, eu sou uma atriz que faz tudo isso. Que utiliza desses recursos (corpo, voz, expressão), para atuar.
Quais atrizes você se espelha e admira?
Fernanda Sanches - Olha, não costumo ter ídolos… Tem muita gente incrível que eu admiro, mas às vezes amo um trabalho, outro já nem tanto… Tem tanta gente inspiradora, no Brasil e fora do país…
Vou citar algumas atrizes brasileiras que me dão orgulho: Marieta Severo, Denise Weinberg, Andréa Beltrão, Juliana Carneiro da Cunha…
E no futuro? Já tem algum plano?
Fernanda Sanches – Sim. Estou finalizando as apresentações de “Chapetuba F.C.” de Vianinha, com direção do José Renato (esse sim posso chamar de ídolo!). Vou atuar em um curta de Marco Delacosta chamado “El Baton”, onde também farei uma garota de programa!
Estou finalizando meu segundo texto teatral através do Núcleo de Dramaturgia do SESI-British Concil, coordenado pela Marici Salomão, do qual faço parte.
E no meio disso tudo, tentando arrumar tempo para levar adiante meus dois projetos pessoais, um em cinema e outro em teatro!
Música para Ninar Dinossauros – Espaço Parlapatões (96 lug.). Pça. Franklin Roosevelt, 158, Centro, 3258-4449. Sáb., 21h; dom., 20h. 60 min. 14 anos. Preço: R$ 30.




Não conhecia a Fernanda. Vim ler a matéria motivado por uma peça infantil a que assisti ontem, chamada “H2Opera”. Um dos atores (que interpreta o “Velho do Rio”), chamado Gilson Garcia é notoriamente acima da média.
Para os que moram em Salvador – ou aqui estão de passagem – e se interessan por teatro, recomendo fortemente. Só este ator, no palco, já compensa o programa.
Quanto à Fernanda, é sempre bom conhecer mais sobre artes – e seus protagonistas reais…
Abraço e obrigado pela matéria, Paulo.
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