Banda Beirut – Elephant Gun (Abaixo a arrogância!)
http://www.youtube.com/watch?v=6rxNjCvCIiE Beirut- Elephant Gun
(clique para ver o video clip)
Nessa música de poucas estrofes a história de alguém que olha para o passado de maneira saudosista, com desejo de ter abandonado a cidade em que mora após ter enterrado seus sonhos na terra. Mas, correspondentemente, bebe para morrer e bebe hoje à noite em esperança. Longe de casa equipa-se com uma arma para matar elefantes com o desejo de derrubá-los um por um, para que quando todos estiverem no chão nenhum elefante mais seja achado ou encontrado. Assim, as estações começariam naturalmente, a felicidade seria iniciada e o grande rei seria morto. Esse desejo ou plano rompe violentamente o silêncio de seu campo à noite. Através da noite. E o que sobra é o que se esconde.
Nas imagens do clipe o primeiro a entrar é um casal em brigas e reconciliações seguidos de crianças com balões. Após, vê-se e ouve-se o primeiro tiro. Vê-se o segundo tiro e o estouro de um dos balões. Após, a imagem de uma mulher dominadora com dois cães-homens que são desfeitos pela festividade do início das estações num momento em que todos parecem embriagados. Ainda, o simbolismo do mar com faixas em tonalidades de verde e azul encontrando a face daquele que canta um canto que parece vir das profundezas do oceano, ou seja, do fundo de sua alma em transe ou embriagues. (It rips through the silence of our camp tonight. All that is left is all that is hide).
Matar um elefante é o canto que surge da sua embriagues em grupo e noturna. Nesse silêncio, a voz que se escuta é aquela que deseja acabar com a arrogância, prepotência e diferença entre os seres humanos. Que matem o rei! Que matem a arrogância! Em sua imagens um local de brigas e reconciliações conjugais onde qualquer grandiosa fantasia infantil era morta, os balões estourados. O que sobra é a pequenez de sua insatisfação por não os ter deixado, voado para longe, apesar dos sonhos enterrados. Sublimam-se então como matadores de elefantes. Ademais, diante da nossa conquistada pequenez e insuficiência, todos são elefantes ou reis.
Fernando Pessoa assim descreve esse estado:
”Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia
…
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste mundo que me confesse que uma vez foi vil?”
(Mensagem 2ª edição)
A bebida ou transe através da música oceânica são considerados apaziguadores da vontade, que é exercida durante o dia, e assim o objeto da vontade se torna a diminução das conquistas. A morte é a falta da necessidade de cumprir com as expectativas, próprias ou não; é a diminuição do desejo, é quando todos os elefantes deixam de ser elefantes, pois ninguém pode ser invejado por aquilo que não desejamos possuir e por sermos iguais perante a natureza. Estado esse, quando sustentado, comparado a sabedoria estóica. Assim sendo, descreve-se dois modos cíclicos e antagônicos de matar elefantes; um agressivo no qual elimina-se através de tiros ou atitudes dirigidas a soberba e arrogancia daqueles que se julgam superiores ou mais merecedores e, um passivo, no qual a dimunição das necessidades leva a um estado de inexistência de inveja no qual a soberba, o status e o poder são considerados vícios e exageros desnecessários e a necessidade em si mesma, uma carência.
João Marin é Psiquiatra e Neurocientista
UNIFESP-SP




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