Crônica do momento crônico
E foi daquele jeito que João chegou ao cais.
Sem mais nem menos, como que suspenso no ar pelo furacão de idéias, palavras e interrogações que insistiam em lhe atormentar. “É um desrespeito” – pensava – “que, em uma cabeça tão pequena, tanta coisa passe sem nem ao dono pedir permissão”.
O que João se recusava a admitir era que nada por ali passava sem a sua aquiescência. Ele não apenas sabia, como queria que, ali, tudo aquilo passasse.
Ao levantar, ainda cedo e antes do Sol, calçou o melhor par de sapatos, o par de meias mais macio; escolheu aquela calça tão bem vincada, o cinto de couro e a camisa tão bem passada que uma única ruga seria mais assombrosamente percebida do que um ponto branco maculando de modo acintoso a escuridão mais perfeita.
Penteou cuidadosamente os cabelos, tendo o capricho de deixar despenteados apenas aqueles fios que lhe garantiam a liberdade de ser dono da própria história. Barba feita, só alguns livros essenciais nas mãos, saiu de casa sem que ninguém o enxergasse.
No caminho, cumprimentou a brisa, o mato e o cheiro de orvalho que lhe adentrava as narinas. Já estava tão acostumado com todos aqueles perfumes que se alguém se interpusesse entre os entes que os exalavam e o próprio vento, saberia precisar-lhe não somente a localização, mas nome e sobrenome. Ele transitava por tudo aquilo com a altivez de quem conhece o próprio mundo há séculos.
O problema é que, justo naquele dia, naquela hora tão tenra em que o Sol preguiçosamente gotejava luz no dia ainda imberbe, algo lhe cheirou “fora do lugar”. E foi justo aquele cheiro irreconhecível, meio adocicado, um pouco envolvido por uma mistura de café e sorriso, que lhe segurou a mão no momento em que o dia começava. E, por isso, no caminho, se viu obrigado a confrontar o mar – o único elemento que se lhe apresentava incontrolável.
E foi exatamente daquele jeito, sem saber do próprio destino e sem saber precisar de que modo aquele cheiro diferente encontrou um lugar próprio no seu universo tão cuidadosamente planejado – mas sem o perturbar -, foi daquele jeito que João chegou ao cais.




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