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Meritocracia vs. “A Cultura do Talento e seus perigos”

Postado por Marcelo Rios em quinta-feira, 29 julho 2010Comente

podio“O futebol está no DNA do brasileiro”; “Ele toca bem desse jeito porque já tem o dom” – e tantas outras sandices que são propaladas mundo afora. Afinal de contas, de onde vem esse tal desse “dom mágico”? Esse “talento miraculoso” cuja origem, para muitos, deve permanecer desejavelmente inexplicada – porque a “teoria do dom divino” nos dispensa da obrigação de procurar a sua fonte – é um grande castelo de areia onde se apoiam as esperanças de sair da miséria (ou do anonimato) para o estrelato sem um mínimo de esforço e rumo a um futuro cheio de recompensas.

A Meritocracia é um sistema universal. Todo efeito alcançado é de qualidade análoga ao mérito gerado pela sua causa – evocando um princípio tratado por Allan Kardec, sempre à luz da razão. Ora, se fôssemos as tais “tábulas rasas”, de onde surge aquele “conhecimento inato” que faz com que uma criança reja uma orquestra ou apresente tendência para a Comunicação em detrimento da Engenharia?

Este tema, esta dúvida, ambos já foram exaustivamente tratados por pensadores e pesquisadores como o próprio Kardec, além de Leopoldo Machado, Carlos Imbassahy (notadamente nas suas respostas ao padreco Quevedo) e pelo próprio Carlos Bernardo Loureiro. Mas há quem ainda deposite a responsabilidade nos genes. Mas de que forma um conjunto de aminoácidos seria capaz de dotar um recém-nascido de um léxico ou das relações mais complexas da teoria musical? Rebatendo o argumento de que seria “do mesmo modo que a cor dos olhos ou o tipo de cabelo”, respondo que é necessário ter muita calma nessa hora: faculdades psíquicas são bem diferentes de características fenotípicas…

Até o momento – verdade seja dita -, ninguém conseguiu provar que é o cérebro que segrega o pensamento. Os estudos de Ernesto Bozzano sobre a ideoplastia, bem como os de Alexis Carrel sobre os efeitos anatômicos da prece denotam justamente o contrário: que as Academias optaram por agir como grandes instituições religiosas – cujo deus é o cérebro -, onde são propostas as mais mirabolantes teses explicativas para tudo, mas cuja validade (quando o assunto é explicar a natureza psíquica do Homem) é, geralmente, parca ou mesmo nula.

Para o pesquisador espírita Carlos Bernardo Loureiro, o cérebro é tão essencial para a vida humana quanto os pulmões, o coração, os rins ou mesmo os intestinos. A vida é um fenômeno ainda não dimensionado, que tem lugar em um sistema ainda incógnito – e a inteligência, antes de ser fruto disso tudo, parece, pelo contrário, servir-se deste complexo mecanismo para realizar as suas operações – denotando a ainda maior complexidade daquela.

Quem, até hoje, conseguiu provar que um bebê sente prazer sexual ao mamar no seio de sua mãe? Quem, até o momento, ofereceu uma teoria satisfatória para explicar os fenômenos de quase-morte pesquisados por Elizabeth Kübler-Ross, e que provam que o psiquismo pode atuar apartado do corpo físico? Das sandices de Freud ao teimoso ceticismo das Academias, o que fica claro é um ponto crucial: a Grande Verdade é que os senhores doutores ignoram a Causa Magna do psiquismo humano.

Voltemos então ao “dom”. Se, de acordo com Allan Kardec, todo efeito pressupõe uma causa, e se todo efeito inteligente pressupõe uma causa inteligente, como aquele talento foi se refugiar, serelepe, no psiquismo de um recém-nascido? Aquilo a que chamamos “dom” ou “aptidão inata” é, necessariamente, fruto de um esforço anterior, conservado pelo Espírito e do qual traz reminiscências. É patrimônio adquirido de um Ser que não descarta o que aprendeu em vidas pregressas, preservando seus conhecimentos para as próximas e pondo sobre os ombros de cada um a responsabilidade pelo seu próprio futuro.

É desta forma que se conserva o mérito, em lugar de se atribuir aos favores e humores de um deus que dá tudo ao meu vizinho, mas a mim, reserva a demência e a inépcia. Incongruências religiosas que dão espaço para pensamentos como o nazista e, antes mesmo deste, o inquisidor…

Porém, ao colocar o “dom” como uma espécie de “favor divino”, está aberto todo o espaço para a acomodação, a preguiça e, principalmente, a idéia de que toda empresa que levemos adiante é enfadonha. Se nasce com boa voz, canta sem se preocupar em estudar. Se joga bola, não precisa treinar.

Trago o belíssimo exemplo da Bruna Caram (sou fã, sim), que tem talento esculpido ao longo de anos de prática e estudo. Hoje, estuda balé, canto, teatro, sapateado, tudo para tirar o melhor de si. A quem interessar possa, leia a entrevista que a Bruna Caram concedeu à Teia Cultural e que ilustra a imagem de que, antes mesmo que o tronco comece a se fortalecer, uma grande árvore lança suas raízes em busca da água subterrânea: uma atividade obscura, paciente e trabalhosa, mas que garante vigor quase que inabalável àquela construção – que só tomba diante da violência assassina ou da ação dos parasitas. Fica o desejo para que o trabalho da moça sobreviva a ambos…

Uma nação socialmente vitoriosa dever-se-ia basear na Meritocracia como principal determinador do sucesso ou fracasso individual e coletivo. Quando tudo repousa nos “dons” e na “predestinação”, o sucesso passará a ser motivo de comemoração – quando, na verdade, é apenas a consequência natural de um trabalho bem planejado e construído por anos a fio para ser sólido e resistir ao tempo.

Enquanto se continuar o endeusamento dos “bezerros de ouro” do futebol, da música e do Carnaval, assassinatos e humilhações preservarão o seu lugar diante de um povo que aplaude quem os espolia.

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