No dia do amigo…
De todo mundo que conhecia, apenas ele pensava “aquele tipo de pensamento”. Quando tudo estava calma, era necessário agitar. Quando agitado, fazia questão de acalmar. Se estava claro, escurecia; se escuro, jogava luz. Desembaraçava o que estava muito embolado, e fazia questão de complicar o que se apresentava óbvio demais.
Gritava que havia um ponto preto no lençol alvo de algodão – e escandalizava ao defender o que todo mundo adorava atacar. Quando todos defendiam o seu objeto de proteção, começava a desconfiar do mesmo: “Deve haver algo aí que seja digno de desconfiança”, era o que pensava.
Desconfiava: de tudo, de todos, de si mesmo; do que via, cheirava, ouvia, provava e tocava. Havia de haver engano! Afinal de contas, a simplicidade só deveria ter lugar naquilo que a tudo fizesse compreender – e enquanto assim não fosse, não tinha conversa ou negociação: só arredava o pé depois que a última dúvida fosse escorraçada do ínfimo espaço entre as verdades grudadas como um vedante de porcelana.
Sendo desse jeito que era, só conseguiria se sentir sozinho, não fosse pelos verdadeiros amigos que tinha – e que mais ninguém conhecia (e já não importava isso). Sabendo que muitos amigos tinha ali, naquela dimensão que atravessava o visível, começou a fazer as pazes consigo mesmo; e reservou para si a companhia da solidão que jamais o deixou a sós.




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