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As considerações entre música erudita e popular e o valor do cancionista

Postado por Thífani Postali em terça-feira, 27 julho 20103 Comentários

MUSICAPOComo já havia dito em um de meus textos para a Teia, em diversos estudos que exploram a prática musical existe a preocupação em contrastar a música erudita da popular. Segundo a visão de Oliveira, erudito é o gênero musical “racionalizado, consciente, elaborado, concentrado quanto à técnica, conteúdo, estilo”, ao passo que o popular remete ao conhecimento “empírico, sem refinamento técnico, intuitivo, de fácil consumo, descompromissado com técnica, conteúdo e estilo. Essa definição de Oliveira parece ser não só simplista, mas um tanto preconceituosa e equivocada.

Para contrapor as ideias apresentadas, utilizarei as considerações de Luiz Tatit acerca do universo da música popular, em especial, do papel do músico de canções populares.

Em suas inúmeras publicações, Tatit se refere ao músico popular como “cancionista”. O autor apresenta que, realmente, não se sabe ao certo como o cancionista aprendeu a tocar, a compor e a cantar, porém, deixa claro que ele não é um simples indivíduo descompromissado, como apresenta Oliveira ao mencionar a produção da música popular como “descompromissada com técnica, conteúdo e estilo”.

Tatit parte da ideia de que o cancionista, apesar de não dominar a teoria musical, “sempre soube fazer tudo isso”. Para o autor, compor significa “dar contornos físicos e sensoriais a um conteúdo psíquico e incorpóreo. Pressupõe, portanto, uma técnica de conversão de ideias e emoções em substância fônica conduzida em forma de melodia”. Desta forma, compara o cancionista à figura de um “malabarista” pelo fato de o compositor possuir controle da atividade que permite equilibrar a melodia no texto e o texto na melodia. Tatit lembra que “cantar é uma gestualidade oral, ao mesmo tempo contínua, articulada, tensa e natural, que exige um permanente equilíbrio entre os elementos melódicos, linguísticos, os parâmetros musicais e a entonação coloquial”. Diante das colocações de Tatit, é possível avaliar que a definição de Oliveira distancia-se da verdadeira essência da música popular. E esse equívoco, quando se refere às comparações entre música erudita e popular, ou a própria classificação da segunda, é comum em diversos textos que procuram classificar as modalidades.

Em “A canção: eficácia e canto”, Tatit reforça que quem ouve uma canção popular, “ouve alguém dizendo alguma coisa de uma certa forma”. Deste modo, o que caracteriza a música popular é, justamente, o fato de o receptor reconhecer na música situações cotidianas de conversas. Essa característica, tão comum da cultura/comunicação popular, faz do discurso oral parte importante da música popular, diferente da música erudita que, segundo Tatit, “possui uma forte tendência no sentido de converter a voz em instrumento musical”.

Talvez seja esse um dos principais pontos que diferenciam a música erudita da popular. E, a partir dessa ideia, é possível inverter as colocações de Oliveira, já que a música erudita possui descompromisso com o conteúdo discursivo ao passo que a popular o valoriza[1].

            Assim, termino minhas observações considerando que classificar ou comparar música erudita e popular é uma tarefa bastante complexa. Por outro lado, afirmo que não há como identificar se este ou aquele formato é mais correto ou importante. São apenas maneiras diferentes de se pensar e produzir a música, o que também envolve os gostos e os costumes de cada um.


[1] O fato da valorização oral não faz de toda música popular um discurso verbal. Não procuro generalizar, mas sim mostrar uma das principais divergências entre a música erudita e popular, já que, na maioria dos casos, encontramos definições preconceituosas que apontam a popular como produção desqualificada.

___

REFERÊNCIAS:

TATIT, Luiz. A canção: eficácia e canto. São Paulo, SP: Atual, 1986.

TATIT, Luiz. O cancionista. São Paulo, SP: Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

OLIVEIRA, J. Zila de; OLIVEIRA, Marilena de. Prática de estruturas Musicais. São Paulo, SP: MCA do Brasil Editora Musical, 1977.

Imagem: Charge de Belmonte publicada em 25 de maio de 1946. Disponível em: http://almanaque.folha.uol.com.br/musicapopulardobrasil.htmTATO:

Contato:

thifanipostali@hotmail.com

@thifanipostali

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3 Comentários »

  • Marcelo Rios disse:

    Thífani,

    Gostei bastante do texto, mas reforço uma observação que, pelo visto, já está na sua nota de rodapé: talvez a música erudita não valorize tanto o verbo. Porém o seu discurso, ao meu ver, é tão forte quanto o da música popular – uma vez que, pessoalmente, entendo por “discurso” toda e qualquer mensagem transmitida, seja lá qual for o veículo utilizado (verbal ou não).

    Obrigado pelo texto e um forte abraço!
    =]

  • Thífani Postali (author) disse:

    Oi Amigo Marcelo!!
    Agradeço o comentário!
    É por isso que digo que compará-las é complicado.
    Apesar de estar me referindo ao discurso oral, concordo contigo que tudo é discurso, ou melhor: comunicação.
    Vou escrever mais sobre estas questões. Tenho bastante material.

    Abraços!

    =)

  • Ithalo Furtado disse:

    Thífani, nossa! Que enriquecedoras são suas idéias!
    Particulamente, eu absorvo melhor Luiz Gonzaga do que Mozart, pelo fato de remeter às minhas sensações cotidianas mais simples e essa pureza é mais honesta pra mim.

    Acho que as duas passam emoções de acordo com quem as absorve e o mais genial é saber que o Dono da Mercearia da esquina pode se emocionar com Villa-Lobos também. No Brasil há sempre a mania de categorizar música pela classe social.

    Belo ensaio e espero ler você mais e mais.
    Grande Beijo!

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